Mãos limpas…?

por Paulo Neto | 2015.02.19 - 17:01

 

 

 

Mains propres, tête haute”, começa assim o editorial de hoje de Laurent Joffrin, no “Libération”, comentando um dos slogans usado pelo Front National, de Marine Le Pen.

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Hoje, na política, com a sobranceria, arrogância e pesporrência da grande maioria dos políticos das nossas praças, todos andam, altivos e de cabeça bem erguida.

Para existir um peso na consciência (conteúdo) tem que haver consciência (continente). À míngua dela… nada lhes pesa. São infalíveis, assertivos, determinantes (se bem que por alguém determinados), sábios, competentes, ciosos da sua imunidade e por mor dela, impunes nos seus actos e agir.

Lembremos que a maior parte dos políticos hoje no activo seriam uns banais zé-ninguéns se não tivessem visto a “luz”, vestido a teeshirt da “missão” e enveredado por este “glorificado caminho da cruz”.

E a mais que todas inequívoca prova é que a bicha dos efectivos e dos putativos candidatos a efectivos faz lembrar em lonjura o funeral de Inês de Castro, rainha depois de morta, que exumada por D. Pedro, o Fero, Justiceiro e Cruel, foi conduzida da Quinta das Lágrimas a Lisboa, por entre filas cerradas de povo e com ancho cortejo atrás da nobreza penitente que a julgou e condenou…

Pois andar de cabeça erguida, andam todos, mãos limpas também terão. Hoje a higiene pessoal é muito frequente e adequada a certas profissões. Há produtos de limpeza de rigorosa excelência, na área dos sabonetes, cremes e inodoras lixívias. Há casas de banho por toda a parte com toalhas brancas e toalhetes perfumadas. Há verniz incolor para as unhas, 99% eficiente na ocultação do sarro mais antigo e persistente…

Por isso, Marine Le Pen tem razão – ainda me lembro da sua “maman” posar despida para uma revista do tipo “playboy” gaulês, a “Lui” – qualquer desavergonhado com cara de pau, mesmo usando pulseira electrónica no pulso direito, anda de cabeça erguida e “Les Mains Sales”, afinal era uma peça de teatro da autoria de JP Sartre, escrita em 1948, na qual o escritor se interrogava sobre o uso da violência política na acção revolucionária, colocando a questão: deverá um revolucionário, em nome da eficácia, comprometer um ideal? Tempos idos, os do “engagement” e da Guerra Fria …

les mains sartre

O que é que isto tem a ver com Portugal? E com a Grécia?