“Lecture zapping”

por Paulo Neto | 2014.08.25 - 11:33

 

 

Há muitos anos leitor compulsivo – creio que desde a aprendizagem da leitura – ganhei de há duas ou três décadas a esta parte um estranho modo, uma bizarra mania de leitura no meu quotidiano. Ler 3 ou 4 livros em simultâneo, de um passando para o capítulo de outro, em constante alternância e retomando, depois, o primeiro título – que o é arbitrariamente – fazendo desta estranha prática uma espécie de zapping (não linear mas integral) que me alerta mais os sentidos, requer maior flexibilidade, exercita substancialmente a memória, gera influxos distintos de diegese e registos muito diferenciados de escrita.

E o fio condutor? Esse adestra-se mentalmente e com o novelo de Ariadne, Teseu perde-se e acha-se no labirinto mental de Creta…

Por exemplo… passar do capítulo Xº de “Mandriões do Vale Fértil”, de Cossery, onde um rato inquieta Galal, perturbando seu sono, já de si penosamente arredado pela ideia do atarantado casamento futuro de seu pai. A chegada do tio Mustafá buscando alguém com quem falar, perseguido pelo obsessivo remorso do filho feito na barriga da lavadeira e as congeminações de ambos acerca do futuro daquela casa de dormedores impenitentes pela possível chegada e intrusão de uma mulher… Cossery é um manipulador do sarcasmo e um mestre sábio da ironia e lê-se, sempre, com um sorriso nos lábios e uma sobrancelha soerguida de apreensão…

Entrar em “A Terra das Ameixas Verdes”, de Herta Müller e ler aquelas páginas de curtos flashes de dor, crueldade, sofrimento e morte numa Roménia de Ceausescu, onde o medo domina a todos e o mais trivial para nós ganha para eles contornos esbatidos de sonho e ilusão, num lugar onde a desumanidade criou um império de repressão, pavor e supressão.

Cair na “Linguagem e Silêncio, de Steiner e ler “Orfeu e os seus mitos – Claude Lévi-Strauss” num descompressão ponderada, analítica, semeadora de indícios, pistas para a compreensão do real circundante, ensinando a ler no outrora distante muito do pouco nítido real de hoje. “O mito é o nada que é tudo”?

Saltaricar para “A Morte de Virgílio”, de Broch – esse portento – e seguir aquele ritual de escrita, densa e bela, profunda como um caldeirão monumental onde, ebulientes, as angústias refluem em analepses recorrentes, na configuração de um quarteto de Mozart, com quatro andamentos tão harmoniosos a propor-nos A Água – a chegada; O Fogo – a descida; A Terra – a expectativa; O Éter – o regresso. O percurso ponderado à laia de um balanço que o poeta, às portas da morte, faz do deve e haver de sua vida.

(…)

Claro está que o compadre Zacarias, recém-chegado suado e frenético da sua corrida diária na manutenção tão louvável dos Zeus de hoje, na utilíssima Ecopista, me chama orate e decrépito, mas eu não ligo… Sei que não tenho o cérbero trôpego.