Flash de rua

por Paulo Neto | 2014.08.24 - 10:01

1. À noite a rua tem luz amarela e a sombra das paredes. A calçada descansa dos pés e está limpa. Um homem velho e cego toca há horas a mesma moda numa sanfona exausta. O latão junto às biqueiras tem três moedas pretas. Ainda não chega para meio-quartilho. Doem-lhe os dedos.
2. A Maria Isaura regressa ao seu quarto na Rua Escura. Já poucos sabem que se chama assim. É a “bicha-dada”. Desde os 11 anos. Em seis horas de rua fez três clientes. 30 euros. Doem-lhe os pés. Só os pés. Há muito que não sente mais corpo.
3. Ao cimo da rua um barulho de vidros quebrados. E outro, de latas batidas. É o Tó-Guilho. Vem desaustinado. Não conseguiu picar-se. Não conseguiu gamar nada a ninguém. Não comprou a dose. Dói-lhe o corpo todo. As câimbras chicoteiam-lhe as articulações. A cabeça estoira-lhe. Como os caixotes de lixo que pontapeia e os vidros que esmurra.
4. A rua gosta deles. Das pragas, das teclas que a artrose afaga com dor, dos saltos altos que os pés inchados da “bicha-dada” percutem na pedra… Eles não se falam. Mas não se agridem. Não é respeito. É apenas um acordo de rua.
5. Em baixo, ao fundo da calçada, ranchos de gente vão para a feira. Famílias inteiras que vão feirar. Aturdir-se com a multidão. Iludir-se com as luzes. Ouvir o seu Tony. São as três horas de atordoamento que o domingo lhes concede. Amanhã volta o trabalho. A falta de dinheiro. A renda para pagar… A Feira está ali feérica de luz e som. É um rio de gente. Nas suas margens, os outros, os vencidos e os a vencer. O desânimo e o espasmo de logro. A metáfora da vida onde há sempre um rio e uma foz. Onde se afogam efémeras as angústias e as misérias.