José Eduardo dos Santos, o cadáver que todos querem

Com todas as qualidades e defeitos que o antigo líder do MPLA pudesse ter tido, depois de morto deveria ter o inalienável e inultrapassável direito à paz. Mas paz, pelos vistos, é aquilo que muitos não querem dar-lhe…

  • 23:13 | Sábado, 20 de Agosto de 2022
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Tem sido um espectáculo lastimável e degradante o proporcionado pelos descendentes do antigo presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, em torno do defunto corpo de seu pai.

O cadáver daquele que foi o homem mais poderoso de África, e talvez o mais rico, não tem paz e tem sido alvo de inúmeras controvérsias políticas, tanatológicas e judiciais.

Ninguém é eterno. José Eduardo dos Santos morreu em Barcelona a 8 de Julho deste ano e hoje, de bolanda em bolanda, de polémica em polémica, alimentada pelos seus herdeiros, o corpo daquele que governou Angola de 1979 a 2017, chegou finalmente a Luanda na véspera daquele que seria o seu 80º aniversário.

MPLA e UNITA, às portas das eleições em Angola, marcadas para o dia 24 de Agosto, veem-se colateralmente no epicentro mediático deste macabro charivari que fez do finado  “Pai da Nação” uma arma de arremesso político e um instrumento de revanchismo dos vingativos cleptocratas usufrutuários das benesses e mordomias do ido regime.


Os ódios vieram ao de cima e explodiram com fragor, alimentados e sustentados pelos milhares de milhões das fortunas acumuladas pelos ora reclamantes.

A João Lourenço, o actual presidente de Angola, o clã Dos Santos não perdoou a tentativa de apuramento das origens das fortunas “herdadas”, os processos judiciais, a condenação a 5 anos de prisão de Filomeno dos Santos, um dos muitos filhos do falecido, o arresto de bens, a confiscação de propriedades, o exílio, etc.

Aliás, estes descendentes viveram a maior parte das suas vidas como “golden boys and girls”, no Olimpo dos privilegiados, imunes e impunes a quaisquer actos sancionatórios, punitivos ou condenatórios. E muito lhes terá custado a privação deste estatuto…

Com fortunas fabulosas a recato em inacessíveis paraísos fiscais, perdido o poder, mantêm as riquezas que lhes servem de base para dar continuidade a este macabro folclore.

Com todas as qualidades e defeitos que o antigo líder do MPLA pudesse ter tido, depois de morto deveria ter o inalienável e inultrapassável direito à paz. Mas paz, pelos vistos, é aquilo que muitos não querem dar-lhe…

 

(Fotos DR)

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