Incenso e mirra sobre Portas

por Paulo Neto | 2014.01.13 - 00:01

 

Este fim-de-semana decorreu o Congresso do CDS/PP. Incenso e mirra foram aspergidos sobre a fronte do pretório Portas.

O CDS vive momentos de glória. Secundos inter pares, com a oposição interna desencorajada e anulada, é um partido monocéfalo, onde a cortesã fidelidade ao senador garante a coesão – que não a coerência – numa base centripetadora de aglutinação.

Os dissidentes são desencorajados, o unanimismo faz escola, Portas parece um “stalinezinho” cheio de tiques teatrais de Estado Novo, mas de fachada monumentalizada irrevogavelmente oca.

Os “Jotas” apresentaram uma moção muito apreciada por secretários de Estado da idade deles – Nabokov ao contrário – ainda do mesmo reduto recém-saídos, que na sua essência propõe a redução da escolaridade obrigatória do 12º para o 9º ano, longo e penoso caminho que tanto custou a percorrer a gerações de gente séria e adulta, baseada nuns vãos pretextos de insucesso escolar e de liberdade de escolha público vs. privado.

E aqui perdoar-me-ão a memória, ocorreu-me uma história real passada em meados dos anos 50 com o meu avô Hilário, à época notário, magistrado do MP e presidente da câmara de Sátão e um seu colega conhecido como o “Doutor da Meã” – o dr. Figueiredo, advogado astuciosíssimo que, dizia-se, livrava qualquer homicida da cadeia por uma rasa de libras. Tinha o meu avô mandado construir um chafariz e uma escola primária numa das freguesias do concelho quando o “Doutor da Meã” o interpelou muito indignado:

— “Ó Hilário põe-lhes água à porta de casa e escolas ao cimo da rua… dá-lhes facilidades e instrução… qualquer dia sabem tanto como nós e não fazemos nada deles!”

Aqui está, elipticamente enunciada a política do atavismo da raça, tão querida ao Doutor Salazar, que foi professor do meu avô, na década de 20, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, sendo estadista muito admirado por ele.

Não me alongo nem me detenho em mais comentários sobre o absurdo desta moção, a sua regressiva elementaridade, o seu básico desconhecimento de um passado próximo, a via aberta ao Ensino elitista e à prosperidade da Escola privada, com o dinheiro de todos nós. Não quero deter-me na vergonha e acinte que durante décadas sofremos por sermos um dos países mais subdesenvolvidos da Europa, com uma taxa de analfabetismo demolidora. Útil seria apenas apelar ao bom senso, a alguma memória e a um pouco de conhecimento de História Contemporânea. Que os “Jotas” tenham esses arroubos até se pode compreender, que adultos supostamente responsáveis os apoiem, isso já é outra conversa… o compadre Zacarias já cochichou: “Foram os mais velhos que encomendaram o sermão aos miúdos…” Mas já sabemos que o compadre Zacarias se desracionaliza frequentemente com os seus radicalismos…

Alguns jornais, sem conteúdo, pegaram na forma e referiram qualquer coisa do género:

Portas e Coelho encontraram-se numa estação de serviço. Coelho ao balcão comia leitão. Portas, à mesa, optou por panadinhos.” Ficámos esclarecidos sobre a síntese da “coisa”!

O deputado viseense e colaborador do Rua Direita, Hélder Amaral foi eleito para a comissão executiva, um dos órgãos de cúpula da partido. As nossas felicitações, votos de sucesso político e que a sua ascensão se traduza numa mais-valia para o distrito que o elegeu.