Ignorantes “Like” Poder

por Paulo Neto | 2014.01.15 - 00:01

 

Pois não dá vontade de rir ver um engenheiro ir pelos ares com o petardo a que chegou fogo?”

Cena IV; Acto Terceiro; “Hamlet“, de W. Shakespeare

 

 

O sapiente é erudito. Tem um conhecimento intelectual das coisas. Reflecte acerca delas. Tem sabedoria.

Na Lição inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio de França, proferida a 7 de Janeiro de 1977 – depois dada ao prelo em Portugal pelas “edições 70” (Lx. 1979), Roland Barthes conclui com esta “sentença”:

SAPIENTIA: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível.”

Barthes foi um homem sapiente. Por isso, também por isso, sabia do que falava. E assim entendia que a sapiência não era um poder nem um instrumento de qualquer forma de poder, que a sapiência era independente, livre, sem subjugações nem apropriações. Que qualquer homem sábio não se tolhe nem se enreda nas malhas do poder. Que o poder detesta os sapientes.

O saber – dito “um pouco“, como se de um q.b. se tratasse, retrata a humildade de quem o detém em amplíssima quantidade… de conhecimento, de informação… A sabedoria, oriunda do vocábulo sapientia é um conhecimento de sábios, é a muita instrução, é a rectidão, também. Quem é sábio deve ser recto.

Mas tudo isto nada é se não lhe conferirmos o sabor, o gosto que dá paladar e faz a distinção, a esse nível sensorial, do aversivo para o gostoso. Não desgostoso.

Também pode ser a graça conferida a algo. A um dito. A uma lição. A um desejo… Saborear  pode ser tornar algo muito apetecível. Ou porque é apetecível, ser objecto do saboreio.

Como vêem, o poder é antagónico, neste contexto, do sabor. O sapiente procura e tem o máximo de sabor e NENHUM poder.

O poder é contaminador. Colide com os palatos e com as gustativas. Freud explica-o. Os medíocres adoram o poder. Exactamente por isso. Porque lhes faltam os outros condimentos: o saber e o sabor. E quem pode dar o que lhe falta ou nunca possuiu?

 

Our “devices” are our intended purposes, products of our wills, bu our fates are antithetical to our characters, and what we think to do as no relation to our thoughts’ “ends”, where “ends” means both conclusions, and harvests. Desire and destiny are contraries, and all thought thus must undo itself. Hamlet’s nihilism is indeed transcendente, surpassing what can exist in the personages of Dostoevsky, or in Nietzsche’s forebodings that what we can find words for must be already deads in our hearts, and that only what cannot be said is worth the saying.

Shakespeare – The Invention of the Humain“, Bloom, H. (FEL, Lond., 98), p.426.