Gerir afectos em tempos infectos

por Paulo Neto | 2014.01.17 - 00:01

O dia 17 de Janeiro é importante para mim. Nasceu a minha já falecida Mãe, Rosa Neto, nasceu o meu sobrinho e afilhado Renato Pedro e nasceu a minha finada cadela Yuga.

Se isto assim escrito vos chocar não vou invocar a minha gestão de “gostos” nem, obviamente quantificá-los. Todos têm e tiveram a sua relevância na minha existência e ninguém mos tira do coração. Ponto final e um manguito.

Uma professora minha amiga, deslocada de uma escola onde leccionava há anos e colocada numa cidade distante, hostil, desconhecida, sem que o seu lugar tivesse sido ocupado por alguém com mais qualificação e anos/experiência de serviço, sentiu-se injustiçada, vítima de uma desapiedada máquina/sistema sem cérebro nem coração, kafkianamente destroçada.

Além de lhe aumentar a distância a casa, obrigou-a a alugar um apartamento – o salário já é escasso – na impossibilidade de ir e vir como anteriormente fazia.

Mais grave, deixou o marido e com ele a filha de 10 anos. Ambos sentem muito a sua falta. Ela sente a falta de ambos. Os alunos sentem a sua falta. Ela sente a falta dos seus alunos. A máquina brutal e trituradora não sente a falta de ninguém.

A minha amiga interpôs uma providência cautelar ao acto administrativo, numa derradeira esperança de inverter as engrenagens desalmadas. Em vão. Julgada improcedente.

Lá ao longe, a família, arranjou um estratagema: instalaram o skype e jantam juntos, conversam, vêem-se e a Mãe orienta a Filha nos seus estudos e gere, assim, os seus afectos, até à hora de “nanar”. Só não se podem afagar…

Bendita tecnologia que aproxima quem se ama.

Maldita tecnologia que os separa com a frieza implacável da irracionalidade cega e escandalosa dos Tempos Modernos na sua versão mais obsoleta.