FAR e Museu Abel Manta de mãos dadas para o futuro…

por Paulo Neto | 2017.02.02 - 21:53

 

 

 

…É verdade. A Fundação Aquilino Ribeiro, em Soutosa e o Museu Abel Manta, em Gouveia protocolaram hoje formalmente na sede da Fundação uma cooperação entre as duas Instituições. E porquê?

 

Várias poderiam ser as respostas, mas melhor que sermos nós a dá-las, Aquilino Ribeiro o esclarece na sua 2ª edição de 1951 da obra “Portugueses das Sete Partidas” (a 1º edição é de 1943 com dedicatória a José Leite de Vasconcelos), com um prefácio longo de 16 páginas dedicado ao seu velho amigo Abel Manta:

Quando estou na casa de Soutosa e me acontece chegar às janelas viradas ao Sul, que se abrem ante os meus olhos tal um leque japonês com uma paisagem de montanha, nua, fluida e torturada, abrangem Gouveia, a sua terra. Não é todavia pequeno o galão que vai do meu planalto até à Serra da Estrela por cima dos contrafortes glabros da Lapa, do Vale de Ferreira de Aves, que se não vê, da falda montante de Seia, gris, violeta, dourada, consoante as cataduras do céu. (…) O Abel Manta deve ter sido destes que do alto receberam o condão divino: pintar homens, ruas, campos, naturezas mortas, neves, as tão caprichosas neves da Serra, assim cumprindo a sua missão.

Ora eu nesta via sacra, não pelo mérito mas pelos abrolhos, que ando a percorrer há mais de um quarto de século, vou deixando ex-votos pelo caminho.  Tendo-me posto a rememorá-los, verifiquei que faltava um com o seu nome. De verdade que estou em falta, que mais não fosse pelo que o estimo e admiro. Desde que tive o subido prazer de conhecê-lo, jamais se passou dia em que deixássemos de ser um para o outro leais e fraternos, primeira cláusula da amizade. (…) Por todo este acervo de circunstâncias, confraternidade na terra e no céu, em Lisboa e em Paris, na arte e na vida, tinha por obrigação inscrever o seu nome na torça dos meus oratórios.”

Que mais não fosse, bastavam estas palavras de Aquilino, no frontispício de seu livro gravadas para fazer surgir na Paula Branco e no subscritor destas linhas a ideia de cimentar e dar continuidade à relação, por força de um protocolo de colaboração entre a FAR e o Museu Abel Manta, entre Soutosa e Gouveia, entre os municípios das Terras do Demo e o município de Gouveia.

Posta a ideia à consideração dos Presidentes, gizado e aprovado o documento, consensualizaram os autarcas, nos seus preenchidos “carnets de bal”, que seria às 12H00 do dia 2 de Fevereiro a sua formalização e assinatura.

 

Assim foi, neste dia chuvoso e frio. De Gouveia estiveram presentes Luís Tadeu, o presidente da Câmara, Jorge Ferreira, o vereador da Cultura e Margarida Neutel, a directora do Museu.

De Moimenta da Beira, o seu presidente José Eduardo Ferreira e o vereador da Cultura, Francisco Cardia.

De Sernancelhe, o seu presidente Carlos Silva Santiago e o respectivo vereador Armando Mateus.

De Vila Nova de Paiva, o seu presidente José Morgado e José Calçada.

Paulo Neto fez a contextualização do protocolo e leu excertos do prefácio supra referido.

De seguida, José Eduardo Ferreira enalteceu o evento e o seu significado, reiterando a imperiosidade de o passar do papel para a realidade concreta das duas instituições e foi mais longe ainda, referindo a necessidade de colaboração em rede, no domínio cultural de autarquias como as ora ali representadas.

Luís Tadeu tomou depois a palavra enfatizando que a grandeza dos territórios passa também e muito pelas colaborações e pontes que se sabem e conseguem estabelecer, na valorização de culturas diferentes e afins, todas reunidas para o engrandecimento dos concelhos em rede.

 

Assinado o protocolo pelos quatro autarcas, seguiu-se uma visita guiada à Casa do Escritor, que se concluiu com um convivial almoço de confraternização em Sernancelhe.

Está de parabéns a FAR. Está de parabéns o Museu Abel Manta. Estão de parabéns estes autarcas que souberam, simbolicamente, reaproximar dois grandes amigos, dois geniais artistas que as vicissitudes da vida separaram e as mãos hábeis e o bem-querer dos homens souberam reunir.

Na FAR há vários quadros de Abel Manta, a começar pelo da sala de entrada que representa uma natureza morta e pode ser visto nas fotografias. Há um desenho de Grete Tiedmann, datado de poucos meses antes de sua morte, em 1927. Um de Aquilino e outro de seu primeiro filho, o juiz-conselheiro Aníbal Aquilino Fritz Tiedmann Ribeiro. Estão também em exposição as duas ilustrações para as obras “Terras do Demo” e “Andam Faunos pelos Bosques”.

 

(Fotos de Paulo Pinto e PN)