“Estuda, para seres alguém…!”

por Paulo Neto | 2014.06.15 - 11:00

Recordo, hoje com saudade, um dos conselhos que a minha Mãe me repetia vezes sem conta: “Estuda, para seres alguém…!”

Numa adolescência mais ou menos gaia, aquele conselho tinha o condão de me irritar e o som de uma praga. Não gostava de estudar, nomeadamente e por imposição, matérias que detestava, da área das ciências e não entendia o conceito de “ser alguém”.

Assim, mal fiz 18 anos – atingida a maioridade – em ruptura com a minha Mãe, que só tardiamente compreendi, saí de casa. Fiz-me à vida. Fui trabalhar, estudar aquilo que queria e de que gostava e, num percurso de autodidactismo precoce e ininterrupto, tentar, “tant pis que mal”, viver sofregamente a vida, trabalhar para me manter, ser boémio qb e estudar para aprender. Nunca estudei para ser alguém. Fi-lo umas vezes por gosto, outras por necessidade, outras por curiosidade, outras por prazer e realização pessoal. Talvez por isso nunca tenha cumprido a 2ª parte do maternal conselho: “ser alguém”.

A minha progenitora nunca me mandou ser político partidário e eu nunca tive, por meu pé, o desejo de integrar “jotas”, assim, nunca consegui seguir a mais acelerada e simplificada via para ser alguém…

Hoje, ignoro quais conselhos dão as mães. Talvez e do tipo:

“Não chegues da discoteca depois das 05!”; “Não bebas mais de 3 shots!”; “Não entres em carros de colegas que bebam álcool!”; “Não andes em más companhias!”; “Nunca te metas na droga!”; “Não faças sexo sem contraceptivo!”; “Não deixes o portátil ligado toda a noite!”;

Sei lá! Não tenho filhos. Só tive pais…

Mas, estes hipotéticos conselhos aqui enunciados – desmesurados na sua ironia – são, curiosamente, expressos por frases negativas. O de minha Mãe, aquele que mais me repetia, era-o por uma frase afirmativa e imperativa. Os tempos mudam. Há que sabê-los acompanhar, tanto no seu evoluir quanto no seu regredir.

Hoje, ninguém estuda para “ser alguém”. E este conceito, de tão ingénuo, só nos fará sorrir – talvez com um travo de amargura… mas ainda assim, hoje, se os V. filhos não forem para a política, que ao menos estudem – muito – para poderem emigrar! Se forem para a política, não precisam de estudar e um dia, alguém lhes oferecerá um diploma…