Este ministro da Educação parece uma barata tonta…

por Paulo Neto | 2014.01.24 - 00:21

… Ora diz mal das ESE’s de Portugal, ora se atamanca nos concursos dos professores, ora avança e recua com o absurdo dos exames dos docentes, estilo 12º-qualquer-aluno-faz, ora profere uns disparates em que já ninguém acredita, ora se engasga nas bolsas …

Não está mal na equipa de Passos Coelho. Confere-lhe coerência na incompetência.

Agora veio com as leituras obrigatórias na disciplina de Português. Com pouca imaginação e algum absurdo à mistura.

Saramago a sair com o “Memorial do Convento” e a entrar com “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Em boa verdade, ambas são obras maiores do nosso Nobel, mas, eventualmente, mal adaptadas à faixa etária dos alunos destinatários. Ainda alvitram “História do Cerco de Lisboa”, o que no meu pensar, também construído em 38 anos de docência e meio século de leitura por paixão, é ir de mal a pior.

Há que pensar na qualidade do que se lê; no tão ausente gosto pela leitura; naquilo que pode motivar os nossos adolescentes e conduzi-los a ler um livro porque gostam e não a ler um livro porque vai “sair no exame”. Ou pelo menos, sendo obrigatório, que tenha um fio, mesmo ténue, de prazer…

Um dos males dos doutos conselhos de reflexão do ME é que são compostos, maioritariamente, por docentes e técnicos que não têm uma visão adequada da realidade actual e ainda se mantêm no falanstério dos seus gostos pessoais enquanto critério selectivo para as afinidades de milhares de terceiros, a anos-luz da sua idade e propensão.

Saramago é o único Nobel que temos. E da Literatura. Faz todo o sentido ser lido. Talvez o “Ensaio sobre a cegueira” fosse mais apropriado aos gostos dos jovens. Talvez.

Talvez tudo dependa ainda da qualidade do professor que tenham a português. Da sua capacidade de motivação e das suas estratégias de leccionação. Critério não é, decerto, o avocado pelo município de Mafra que não quer perder a fonte de receitas proporcionada pelos milhares de visitas de estudo/ano ao Convento…

Eça de Queirós, muda de “Os Maias” – cuja dimensão/tamanho sempre foi assustador para quem não é leitor – para “A Ilustre Casa de Ramires”… pacífico. Mas Eça continua, porquê? Eu sei da sua grandeza. Tenho e li toda a sua obra. Li-a sozinho e li-a com milhares de alunos durante dezenas de anos. E gosto. Mas não sou um adolescente…

Alexandre Herculano, porquê? Tem obras “pesadíssimas”, de fazer cair a abóbada central de uma igreja. Eu gosto. Mas não sou um adolescente…

Aquilino Ribeiro, com “Cinco Réis de Gente” ou “Uma Luz ao Longe”, numa linguagem tão acessível e numa temática tão integrada nos anos da juventude-adolescência, não seria uma estimável alternativa? Eu gosto, mas sou suspeito…

E dos contemporâneos, se fizessem uma consulta prévia aos destinatários a sondar seus gostos e a procurar depois os resultados em nomes tais como: João Aguiar, Alice Vieira, Jacinto Lucas Pires, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Vasco Graça Moura, Manuel Alegre, Dinis Machado, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Rentes de Carvalho e mais vinte ou trinta… Não gosto de todos, mas talvez os adolescentes gostem…

Sem falar dos escritores lusófonos actuais… e aí escolheríamos mais duas dezenas.

Qualquer dia estão a ler “Menina e Moça”, de Bernardim Ribeiro ou “A Floresta dos Enganos”, de Gil Vicente. Obras magníficas. Mas não para adolescentes…

O problema que se coloca é este: que objectivos se pretendem atingir?

Esses objectivos são atingidos com Alexandre Herculano e Eça de Queirós? A anacronia de certas obras não será desmotivadora? A intemporalidade não é um estádio onde a maturidade conquistada de um leitor deve ter voz? O que é o canónico, neste contexto? O que é a obra literária e qual a dimensão da sua qualidade, neste âmbito? A minha opinião selectiva é análoga à opinião selectiva de um jovem de 16/17 anos?

Como aferiremos, se ao obrigarmos um aluno a ler uma obra que nada lhe diz, por imposição, não perdemos um leitor para toda a vida?

Decerto não é isso que o ME quer. Haja pois consenso, lucidez e bom senso. E ouçam-se, também, os alunos… E não é preciso um referendo. Basta uma sondagem feita nos maiores núcleos urbanos, nos de média dimensão do interior e nas zonas rurais de pequena dimensão.

E se o resultado fosse uma surpresa, pergunto eu, que nestas matérias sou um optimista?