PESSOA E O ESTADO NOVO

por Paulo Neto | 2014.01.22 - 23:30

  

I.

(Salazar)

 

Já Maquiavel dizia que a máxima dos sábios dos nossos dias consiste em esperar o benefício do tempo, Oliveira Salazar, entrevista a António Ferro, 1932.

E foi, efectivamente, uma das arteiras praxis, entre outras, que este político engendrou.

Do 28 de Maio de 1926 ao advento do Estado Novo (1933-1934), decorreu o processo de transição da ditadura militar para o regime salazarista.

Salazar põe em prática o seu sinuoso caminho da tomada do poder, perante a hesitação das forças conservadoras e a profunda crise económica vigente, liderando o estabelecimento de um sistema de alianças entre a direita, tendo como base comum a rejeição do liberalismo e a criação de um Estado forte e interventor, suportado no catolicismo social, no corporativismo, no antiparlamentarismo e no anticomunismo. Cria-se o Estado de partido único, com a União Nacional.

(…)

O ditador morre em 1968, na ignorância de que já não é o Presidente do Conselho de ministros.

A prestidigitação (quase) final.

Chega a liberalização (tardia) de Marcelo Caetano, abrupta e definitivamente terminada em 1974, com a Revolução de Abril.

 

II.

(O Estado)

 

Uma das possíveis análises e definições de Estado, sintetizada, diz-nos que o Estado é uma comunidade humana; que os seus elementos essenciais são o povo, o território e o poder político; que os seus fins são a segurança, a justiça e o bem-estar.

O Estado Novo não é, em sentido lato, uma comunidade humana, o povo não está na sua essência, a justiça e o bem-estar existem apenas para as minorias dos lugar-tenentes do regime.

Logo, redutora e simplisticamente, o Estado Novo é um falhanço redundante, que iludiu, ludibriou e reprimiu os portugueses durante quatro longas décadas.

 

III.

(Cerne da questão)

Fernando Pessoa, a respeito deste assunto:

 

“SIM, É O ESTADO NOVO”

 

Sim, é o Estado Novo, e o povo

Ouviu, leu e assentiu.

Sim, isto é um Estado Novo

Pois é um Estado Novo

Pois é um estado de coisas

Que nunca antes se viu.

 

Em tudo paira a alegria

E, de tão íntima que é,

Como Deus na Teologia

Ela existe em toda a parte

E em parte alguma se vê.

 

Há estradas, e a grande Estrada

Que a tradição ao porvir

Liga, branca e orçamentada,

E vai de onde ninguém parte

Para onde ninguém quer ir.

 

 

Poema In Pessoa / Persona, Agostinho Domingues, Câmara Municipal de Amares, I Centenário do Nascimento do Poeta, 1988.