E quando eu fui “Astérix”?

por Paulo Neto | 2014.01.07 - 00:03

Em meados da década de 80 quis o destino que fosse seleccionado para “boursier du gouvernement français”, na Universidade de Poitiers, a 280 quilómetros ao sul de Paris.

Lembrei-me hoje desse tempo ao arrumar papéis e fotos do passado e encontrar retratos dessa sincronia ainda não digital…

O Táry Gabor, o Ivan, a Kotty, a Nelly Martinez, a Marie-Cécile, o Jean-Marie Baptiste, a Mireille, o Mamadou, o Babakar, a Sophie e… tantos outros, húngaros, paraguaios, sudaneses, tunisinos, toguenses, zairotas, senegaleses, etíopes, egípcios, libaneses…

A semana decorria com aulas das 9H30 ao meio dia e das 15 às 17H00. A seguir, o convívio, a multiculturalidade e a multirracialidade. Os passeios pelo campus, as idas à cidade (5 kms), os espectáculos de teatro, cinema concertos, os fins-de-semana sempre com um destino em mente, ao Vale do Loire ver os castelos de Langeais, Amboise, Chambord; a Limoges, a Nantes, ao Poitou, a Chatelleroux, a Paris, ao Mont Saint Michel. O sucesso que fazíamos na praia de Royan, foz do Gironde, os senegaleses de Dakar, Mamadou e Babakar, negros retintíssimos e eu, de uma envergonhada alvura de leite…

As nossas divertidas conversas, a curiosidade sobre os usos e costumes de cada país. A desconfiança superada com o grupo da Cortina do Leste, a quem depois, na galhofa, perguntávamos qual deles era o elemento da KGB… As calças Levi’s do Ivan e o seu saco de plástico Marlboro, que ele comprara e levava para todo o lado, como “passaporte” para a liberdade. A superioridade do Táry que nos derrotava a todos no xadrez, na natação, no ténis. A voz maravilhosa e triste de Kotty que cantava num coral de Budapeste. Os sacos de café puro da Nelly, cujo marido era haciendero no Paraguai. A insolência superior dos senegaleses que tratavam o reitor da Universidade, Monsieur Marchessous e os professores pelo nome próprio. A admiração que isso me causava…, o zairota Jean-Marie que pedia dinheiro emprestado a todos para ir pagando os empréstimos que a todos contraía. Um árabe de Beirute, cujo nome já não recordo, que nos falava de um país destruído. A Cécile que nunca tinha visto o mar e que fotografei em La Rochelle, a olhar extasiada o Atlântico, com lágrimas bogalhudas a escorrerem-lhe pelo rosto. As etíopes, as suecas de África, belas como manequins e altivas como sobas; as egípcias, fugazes e cândidas como bâmbis. O nosso prof Monsieur Bizard, que era uma bizarria, com o seu cachimbo apagado à Maigret e o seu ar sonhador. Aquela prof cujo nome não retive que nos oferecera a todos jantar em sua casa, informal, de pé, em volta de uma imensa mesa cheia de fromages, salades, baguettes, patés, saucissons, bordelais grand cru classé e muita alegria. A alegria dos vintes e… Um jantar em casa de um reformado coronel das argélias, de fartos bigodes poitvins e rendido aos Bordeaux, Bourgogne e Cognac, que para ser mais amistoso tinha comprado dois long playing, um da Amália e outro da Linda de Suza, para que nos sentíssemos mais em casa, e que gramámos toda a noite, sucessiva e alternadamente… Aquelas grutas milenares onde aprendi para sempre a distinção entre estalactites e estalagmites pela voz de barítono do guia que cantava, “tite-tombe; mite-monte…”

Desse tempo ficou para sempre uma francofilia insuperável (atitude muito inteligente do governo francês) – que e mais tarde, noutras regiões de França e noutros contextos, se foi consolidando – mas ficou, fundamentalmente a noção objectiva da diversidade racial, da pluralidade cultural e do respeito admirável por essas diferenças, nunca mais diluído. Todos os jovens deveriam viver uma experiência análoga…

Bénis soient les Gaulois!