Deitar as mãos à cabeça…

por Paulo Neto | 2014.01.08 - 00:07

A cabeça é uma das partes fundamentais/vitais do corpo humano. Não se consegue viver sem ela, não se transplanta, não há jeito a dar-lhe.

Os suicidas que têm pistolas ou revólveres (mais prósperos que os outros) dão um tiro na cabeça. A decapitação (de capitio) ao cortar a cabeça, separando-a do rosto do tronco, dava-lhe uma importância excepcional. Seccionava-se do corpo que age a cabeça que pensa. Houve grandes invenções na matéria e arte, celebrizando-se o médico Joseph-Inace Guillotin, que a partir do 14 de Julho de 1789 foi muito falado, reconhecido e temido.

Expiar pode significar passar os pecados de uma pessoa ao animal do sacrifício colocando as mãos sobre a sua cabeça.

Nos momentos mais difíceis deitamos as mãos à cabeça. No meio da dor ou da tragédia, as mãos apertadas na cabeça são um símbolo inelutável.

Levítico 16:21-22 refere: Aarão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e sobre ela confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões…

Perder a cabeça, figurativamente, é agir em desrazão, mais até com o coração, este grande inimigo da razão. Um habita o peito outro a cabeça. Raramente coabitam.

Deitamos as mãos à cabeça por um qualquer mimetismo imemorial que passou milenarmente de geração em geração.

Dar cabeçadas, se não for na bola, é uma forma de errar e de sofrer o erro.

A cabeça intuía a capacidade e autoridade de governar, de esclarecer, de ordenar. As cabeças reais e imperiais eram coroadas. Os triunfadores recebiam a coroa de louro nas cabeças.

Os antigos guerreiros cortavam a cabeça aos inimigos derrotados e levavam-nas consigo, ao pescoço de seus cavalos. Era a glória. Degolar garantia a morte.

A policefalia deu azo a grandes figuras mitológicas, como Hécate, o deus das encruzilhadas, as três cabeças de Cérbero, guardião dos Infernos e Jano tem duas cabeças para ver para diante e à rectaguarda…

Quando São Dinis, primeiro bispo mártir de Paris, foi representado, caminhando e levando nas mãos sua cabeça decepada, simbolizou-se a vitória sobre o carrasco e o triunfo do espírito.

“Coitado, não tem cabeça!”, não quer dizer perda ou falta do órgão, mas do que lá devia ir dentro, junto aos miolos ou tecido pensante. Mas ter uma grande cabeça, não significa forçosamente que gaste XXL de capacete, a mais das vezes, quer apenas dizer inteligência, outras, macrocefalia.

Durante anos o homem usou cobrir a cabeça, e o chapéu do Vasquinho, na Canção de Lisboa, “Chapéus há muitos, seu palerma!”, é disso exemplo. O homem de baixa extracção andava descalço e de pés nus. O operário usava boina. O senhor aburguesado usava chapéu, de abas largas, tirolês, panamá, coco, cartola… Toda uma arte… Quem não se lembra de Charlot?

Descobrir-se não tinha nada a ver com o Caminho Marítimo para a Índia – 20 de Maio de 1498 –  nem com o erguer do 7º véu de Salomé, a primeira stripper que se conhece. Era apenas tirar o chapéu.

A reverência era feita com o baixar deferente da cabeça, que deu lugar ao banal aceno de cabeça.

Pessoalmente sou muito cerebral, mas todos os meses deito as mãos à cabeça, quando vejo o meu recibo de vencimento, porfiadamente “arrepelado” pelo irrevogável Portas e pelo jesuítico Coelho. Em breve passarei à fase seguinte: arrancar os cabelos ou descabelar-me…