A Maratona tosquia-nos a todos…

“Não tenho tempo para nada!”; “Não dá, não temos tempo!”; “Nunca tens tempo para mim!”; “Tem 5’ para expor o seu ponto de vista de forma convincente!”; “Ah, quem me dera ter tempo!”; “Se eu tivesse um mês inteiro para ler…”; “Todos os anos adio essa viagem… Não arranjo tempo.”; “O meu tempo voa!” Enfim, […]

  • 2:11 | Quinta-feira, 09 de Janeiro de 2014
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“Não tenho tempo para nada!”; “Não dá, não temos tempo!”; “Nunca tens tempo para mim!”; “Tem 5’ para expor o seu ponto de vista de forma convincente!”; “Ah, quem me dera ter tempo!”; “Se eu tivesse um mês inteiro para ler…”; “Todos os anos adio essa viagem… Não arranjo tempo.”; “O meu tempo voa!”

Enfim, são repetitivamente corriqueiras as expressões deste tipo. Ouvimo-las em toda a parte, lêmo-las em todo o lado; trazêmo-las connosco na cabeça…

O tempo é um déspota. Um tirano, um usurpador, inexorável, cruel e cínico. Pronto!


Vivemos um tempo de incerteza. Newton e Einstein desencontraram-se. O espaço e o tempo transmutaram-se em espaço-tempo e já não imaginamos ou vaticinamos o futuro do futuro, perdida a amplitude vitruviana. Os futuros são múltiplos, as probabilidades incomensuráveis, o homem é um anão.

O tempo comprimiu-se e o espaço, globalizado e ao alcance do clik, está a um atosegundo e em pré diferido, que é um travestimento do virtual. Hoje, o marketing reitera ser de 7 segundos a duração máxima de uma msg audiovisual para um colectivo desatento (tenho que rever as minhas entrevistas!!!).

Por outro lado, no mundo do trabalho tudo se acelera. Alguém escreveu que foi preciso meio milhão de anos para passar do fogo à arma de fogo. Hoje, nas nossas vidas, os objectos sucedem-se freneticamente desactualizando-se em nanosegundos. Há meio século, uma família classe-média possuía (com júbilo e sacrifícios) um automóvel por duas décadas. Hoje, a mesma família, numa década tem quatro carros.

Quanto mais reduzido ou comprimido é o tempo mais encarniçada é a competição quotidiana, ensinando-nos regras “novas” de amoralidade ascensional com hipertrofias egocêntricas assustadoras. O trabalho rareia e precariza-se. Torna-se um imã de conflitos e tensões.

Vive-se um tempo do efémero. Nada dura. Tão pouco as relações interpessoais. Há uma inconsciente sobrevalorização do medo. As depressões galopam à solta. O stress, que o compadre Zacarias, sempre sábio, apodou de “stross”, é um clímax de angústia atingido várias vezes ao dia. A autocracia da urgência, por sua vez, dá um valor incrível a cronos, mas ao imediato, procriando, contra-natura, o apagamento do passado e uma incapacidade de inscrição no futuro próximo. O tempo da antecipação impõe-se. Ver primeiro, saber antes, actuar de imediato, num espaço encurtado, é a chave do sucesso. Andamos todos à velocidade da luz. Curioso é não pensarmos que corremos todos, desordenadamente… para o fim. E quando o ser humano desperta deste aturdimento, acorda como a Bela Adormecida, mas recoberta de rugas, com o tempo perdido, a vitalidade escoada e decrepitude ampliada.

A Maratona tosquia-nos a todos. Não o pelo, mas a pele, a carne e o osso. Ah quem me dera uma elipse…

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