De Auschwitz a Kobani, na Síria

por Paulo Neto | 2015.02.07 - 15:51

 

 

Que vem a ser isso de Paz, afinal? Cá para nós, a guerra nunca acabou.”

Grass, Günter, “O Meu Século” (cap. 1945), Casa das Letras, 2006.

 

Nos últimos 100 anos, os alemães destaparam duas vezes a caixa de Pandora. Ângela Merkel, nesta transição para o centenário (1914-2014) está em vias de lhe tirar a tampa pela terceira vez.

A sociedade actual critica acerbamente e com toda a justa razão a barbárie terrorista que por ai grassa. E contudo, hoje, um século após a abertura das portas de Auschwitz-Birkenau, Dachau, Belzec, Chelmno, Jasenovac, Maly Trostenets, Sobibor, Treblinka… já não nos lembramos dos milhões de seres humanos exterminados com o mais impiedoso requinte de crueldade, selvajaria e cinismo, nesses campos de terror nazi que a Alemanha espalhou pela Polónia, Croácia, Bielorrússia…

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Qual a diferença entre Adolf Hitler e os seus sicários Himmler, Göring, Keitel, Jodl, Beck… e o pior dos fundamentalistas islâmicos? Este último será sempre um mero aprendiz de feiticeiro ao pé daqueles.

 

Se a Alemanha de Merkel e Schäuble conduzir a Grécia para o abraço fraterno do czar Vladimir Putin, os diabos ficam à solta numa Europa que se esboroa e não se regenera a cada dia que passa, velha, anquilosada, degenerada, viciosa, decadente e envilecida por seis decénios de bem-estar, de muita exploração, de e entre países europeus e de dezenas de países africanos (lembremos o “Congo Belga” do rei Leopoldo e a exploração desumana da borracha, impiedosamente retratada por Vargas Llosa em “O Sonho do Celta”)…

 

Honra à Alemanha pela sua notável capacidade de renascer das cinzas (1918-1945); opróbio por alguns capítulos da sua História Contemporânea que carece de ser relembrada com alguma recorrência, sob pena de olvidarmos os grandes crimes da Humanidade neste finado século, os de Josef Vissarionovitch Stalin, incluídos.