Coelho e o ruído da linguagem

por Paulo Neto | 2015.02.05 - 20:20

 

Na Europa assiste-se a um braço de ferro de consequências imprevisíveis entre a Grécia e a EU, BCE, Alemanha…

Não sabemos qual a dimensão do bluff feito. Podemos tentar conjecturar sobre a sua maior consequência: a inexorabilidade da asfixia virar Atenas para a Rússia e talvez para a China.

A Grécia pode chegar a um ponto/estado em que nada tem a perder por tudo ter perdido. As instituições europeias podem perder a Europa numa jogada arrogante. Até agora, estão seguros de que Tsipras capitulará. E porém, ainda hoje, o primeiro-ministro foi claro: “A Grécia não receberá mais ordens” para adiante referir: “É tempo de virar a página, não só na Grécia mas na Europa. A Grécia deixou de ser um membro desgraçado que ouve nas aulas o que deve fazer como trabalho de casa. A Grécia tem voz própria” e depois concluir “Numa semana, ganhámos aliados que não tivemos nos últimos cinco anos de crise”.

 

Em retaliação à morte do piloto Mu’adh al-Kasasbeh queimado vivo dentro de uma jaula, a Jordânia fez um raide aéreo sobre Mosul, no Iraque, que terá morto 55 jihadistas entre os quais o comandante do Estado Islâmico conhecido como “Príncipe do Nineveh”. Na 4ª feira (ontem) enforcou dois jihadistas que tinham sido capturados e condenados à morte, um homem e uma mulher.

Esta guerra sem fim à vista, esta política do terror e do terrorismo, esta guerra em nome da religião onde o radicalismo parece gritar as 10 pragas do Egipto a uma só voz terá sobreviventes?

Pergunta meramente académica e vagamente cruel: Quais gostariam os leitores que fossem, num cenário de exterminação parcial?

 

Coelho fala e diz o que tem na alma. E o que tem na alma este desalmado? Uma frieza e um calculismo terríveis numa sociedade ocidental dita desenvolvida, civilizada, de direito e democrática. Coelho acha que “se devem salvar vidas”. E muito bem. Quando chegou aqui deveria ter-se engasgado. Mas, infelizmente (para ele) o élan elocutivo levou-o aos recônditos do seu sentir profundo, e acrescentou, mostrando inequivocamente qual o valor de uma vida humana para ele… “mas não custe o que custar”…

“Sofosbuvir” é o nome do medicamento que os doentes de Hepatite C precisam para viver. Mas é caro… e Coelho, agraciado com o condão divino de conceder a vida ou a morte, como Caeser (que deu Kaiser), no Coliseu, virou o polegar para baixo.

Coelho devia ler Barthes (se conseguisse…) e reflectir sobre a asserção:

A fala é irreversível, é essa a sua fatalidade. O que foi dito não se pode emendar, salvo se for aumentado: corrigir é, aqui, estranhamente, acrescentar. Ao falar, nunca posso apagar, safar, anular; tudo o que posso fazer é dizer “anulo, apago, rectifico, em suma, falar uma vez mais. A esta singular anulação por acrescentamento chamarei “engasgamento”. O engasgamento é uma mensagem duas vezes falhada…”

Barthes, R. “O Rumor da Língua”, ed. 70 (1987, Lx.)