América Latina, uma História de terror

O papa devolveu-lho dizendo de forma seca e cortante: “Eu não tenho tempo para ler tanta coisa!”, e apesar de Romero lhe reiterar que milhares de salvadorenhos haviam sido torturados e assassinados pelos militares, entre eles cinco sacerdotes, o papa tirou-lhe a palavra furioso: “Não exagere, senhor arcebispo! Um bom cristão não cria problemas à autoridade! A Igreja quer paz e harmonia!”

  • 14:53 | Quarta-feira, 28 de Abril de 2021
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São mais de três dezenas os países e territórios da América Latina e Caribe.

A sua história tem muito a ver com os seus alegados “descobridores” e, à exceção do Brasil, colonizado pelos portugueses, a grande maioria dos restantes tem no seu ADN a Espanha e alguns a França.

Sem recuar à sua História mais remota, centrando-nos na contemporaneidade, esta longa lista de países tem em comum a violenta repressão protagonizada pelos militares e com a igreja, como discreta e oportunista adjuvante.


Regimes de terror absoluto foram vividos em países como a Argentina, Venezuela, Colômbia, Chile, Perú, Equador, República Dominicana, Cuba, Guatemala, Costa Rica, Bolívia, Uruguai, El Salvador, Paraguai, Nicarágua, Haiti, Guiana…

De Pinochet a Papa Doc (François Duvalier), Stroessner, Bordaberry, Videla, Ríos Montt, Somoza, Castro, Fujimori, etc., etc., etc… os déspotas foram às dezenas, se não centenas.

A sua violência na supressão dos seus adversários, na tortura, na censura, na privação de direitos humanos atingiu patamares de inimaginável terror.

Em geral, por trás destes despóticos regimes, encontrava-se mão norte-americana e seus interesses económicos e políticos, com a CIA a desempenhar magistralmente a missão de subversora do mundo que não lhes era, de uma forma ou outra, propício à sua ideologia “democrática” e aos interesses do seu desenfreado capitalismo.

Coube a jornalistas e escritores como, por exemplo, Vargas Llosa e Eduardo Galeano a enumeração e denúncia de algumas das incontáveis atrocidades cometidas.

Do prémio Nobel Vargas Llosa leia-se, por exemplo “Tempos Duros”, que nos retrata, chamando os “bois pelo nome”, o golpe militar na Guatemala, em 1954, encabeçado por Castillo Armas, ou de Eduardo Galeano “Espelhos – Quase Uma História Universal”, onde perpassam séculos de atrocidades cometidas.

E é deste último que relato, de cor, um episódio passado com o papa João Paulo II e o arcebispo Romero, de El Salvador, o bispo-mártir que fez a diferença…

 

Em 1979, perante a realidade vivida no país, as prisões, as torturas, os assassínios, o arcebispo Romero suplicou várias audiências ao Papa para pedir a sua ajuda e a sua intervenção na salvação de milhares de perseguidos.
O Vaticano foi adiando vezes sem conta este encontro até que Romero se pôs na fila dos católicos que aguardavam pacientemente a bênção papal e quando chegou a sua vez tentou entregar-lhe um volumoso relatório com fotografias e testemunhos da opressão.

O Papa devolveu-lho dizendo de forma seca e acutilante: “Eu não tenho tempo para ler tanta coisa!”, e apesar de Romero lhe reiterar que milhares de salvadorenhos haviam sido torturados e assassinados pelos militares, entre eles cinco sacerdotes, o papa tirou-lhe a palavra, cortante: “Não exagere, senhor arcebispo! Um bom cristão não cria problemas à autoridade! A Igreja quer paz e harmonia!”

Dez meses depois, numa paróquia de S. Salvador, quando dizia missa, o cálice erguido, Óscar Romero foi abatido a tiro pelos esbirros da Junta Militar.

Ler a este propósito, de Noam Chomsky, “O que o Tio Sam Realmente Quer” (1999).

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