AH, o Centro Histórico e a política do vazio…

por Paulo Neto | 2015.02.09 - 18:02

 

Ontem escrevemos sobre o gradual empobrecimento comercial da nossa cidade de Viseu

Para hoje tínhamos deixado o tão propalado Centro Histórico.

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Primeiro ponto: Porque é considerado centro?

Porque aí existiu o núcleo primitivo da localidade e aí se edificou, em lugar alto, sobranceiro, o axis mundi nuclear.

Segundo ponto: Porque é considerado histórico?

Porque aí se congregam as edificações de maior relevo patrimonial local, por exemplo, a Sé de Viseu, o Museu Grão Vasco a Igreja da Misericórdia… Porque aí se desenrolou grande parte do passado relevante da urbe.

Terceiro ponto: Como atrair (“revitalizar”) o Centro Histórico?

Tornando-o chamativo/atractivo para os investidores e visitantes. Como?

Pela adequada interacção do património com o turista. Que não existe.

Pelo impecável estado desse património. Que nem sempre é efectivo.

Fazendo círculos de raio cada vez mais amplo, num acto básico de centripetação, cuidar da envolvência que leva ao núcleo do património e dele se afasta. Aqui é o caos…

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A CMV ainda não saiu do gabinete, fechada na sua endogenia de receber, contraria a exogenia do perceber e fazer. Por isso, não entendeu que o turista actual, em geral, procura uma lógica evolutiva. Um pitoresco secular. Uma vivência do passado com suas relações de efeito e causa. Uma experiência vivenciada…

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Valorizar esse topos com unidades comerciais de referência: bons hotéis, excelentes restaurantes, chamativos bares, lojas comerciais de qualidade. Estimular as iniciativas dos investidores que nem sempre são só as dos “amigos”.

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Neste momento existem duas unidades hoteleiras de referência no local, um restaurante mais ou menos relevante, alguns sítios para comer e mais de uma dúzia de bares, dos quais apenas um ou dois se destaca. Quanto a comércio que se distinga… conta-se por dois dedos de uma mão. Não chega!

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A senhora Câmara que ainda não encontrou nem leme nem rumo e ora infesta o espaço de sinalética toponímica, ora o enche de polícias, ora proíbe o estacionamento, ora o permite e, destaque-se porque é justo, começou, enfim, a recuperar alguns edifícios. Para umas incubações de empresas, dizem. Para os serviços municipalizados, referem. Para a CIM Viseu Dão Lafões desejam. Em suma, esvaziar de um lado para colocar no outro…Não chega!

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Se no Verão, fruto das esplanadas, o bom tempo convida a sair de casa, nas outras estações e tirando um ou outro pontual dia/noite, não se vê vivalma, fora os teenagers da 5ª feira e as ressacas de 6ª… Não chega!

Além disso. Na envolvência do centro histórico, desde as diversas ruas e calçadas que a ele acedem até à paradigmática Rua Direita, o que vemos?

Espaços mal cuidados, “pinderismo”, decadência profusa, lixeiras a olho nu e um ar de terceiro-mundo “pobrinho” que, no seu desleixo, negligência e incúria mostra em que mares navega a nau. Não chega!

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Uma cidade pode ter o mais belo monumento do Universo… se em redor houver uma lixeira só que seja, está determinantemente comprometida a mensagem e a sensação de repúdio que vai transmitir ao avisado  e esclarecido visitante.

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Hoje, deambular pelas perpendiculares à Rua Direita é presenciar isso a cada passo; é topá-lo nas fachadas decompostas e arruinadas dos edifícios de toda aquela zona, nas vidraças escaqueiradas, nas portas arrombadas, é perceber que a Rua Formosa tem pouco mais de uma dúzia de moradores; outro tanto a Rua do Comércio; mais alguns a Rua Direita e… assim sucessivamente, entender, com clareza que quase tudo está por fazer e que este executivo camarário se habituou a pagar para ter, atraindo a si os oportunistas do “que está a dar”, mas não sendo capaz, de provar com a inequívoca factualidade que, e por exemplo, a vereadora da Cultura foi ocupar o lugar por ter ideias na cabeça, ao invés de dar resposta a uma quota e a lógicas partidárias.

Também entendemos as festas vínicas por motivos que a seu tempo abordaremos mas, e este ponto é fundamental, com clareza percebemos que da cabeça do autarca-mor, de onde deveriam soprar iniciativas profícuas, estruturantes e dignas, nem uma brisa refrescante brota, antes um bafio pesado, requentado e bolorento da publicidade da loja dos 300. Não chega!

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Viseu não é o Centro Histórico. Há mais vida para além dele. Mas essa vida vai-se extinguindo como se de uma praga se tratasse. A Aguieira está abandonada. A Cava do Viriato não é potenciada. O Parque/Mata do Fontelo é um caos e no estio um paiol. O Parque Aquilino Ribeiro é um ponto de passagem da e para a Alves Martins. O Mercado 1 de Maio extenua-se em actividades “pires”. O Mercado Municipal está, gradualmente, às moscas. A Feira Semanal não é acarinhada e dotada da dignidade que devia merecer do município…

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Enfim, Viver Viseu é, também olhá-la com sentido crítico, ter a capacidade de dar voz ao que se vê/testemunha e, principalmente, não fazer parte da vasta fila de “indigentes” que tiraram ticket à porta da edilidade para abichar o subsidiozinho da salvação, neste país de grandes cultores e cultivadores desse Maná, aduladores subservientes e acríticos de todo e qualquer poder instituído, muito semelhantes a ele na mediocridade das suas competências em prol da urbe que deviam servir e/ou se propõem servir, para fazer mais e melhor e não para abocanharem com avidez um dos plurais têtos ainda anchos do nutritivo e vital pão-nosso-de-cada-dia.

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Que Deus lhe perdoe e o bispo o abençoe, AH, os munícipes começam a perder essa capacidade de tolerância e paciência…

Nota final: Todas as fotografias são minhas e desta passada semana. Tenho mais 2 gigas delas, se quiserem expor.