Ah esta vetusta Barrelas…!

por Paulo Neto | 2014.04.13 - 20:53

 

Um dia passado na “velha Barrelas de um sino” tem um efeito apaziguante e asséptico no organismo.

Parecem mais limpos os ares e o cerúleo tom que nos recobre, mesclado de todos os cambiantes de verde adornado com a exaltação da Natureza revigorada nos seus roxos, rosas, amarelos, encarnados e brancos, de um alvinitência tão sem mácula, tem o condão de nos transmitir este mor hino ou louvor da Criação na sua pujança indiferente aos dedos estultos das mãos rapaces do ser humano.

Cantam cotovias, grasnam gralhas, assobiam melros, trinam tentilhões e chilra a pardalada. Ao longe orneia um asno ruminando a fresca erva do lenteiro húmido. O Paiva corre sem pressas, sabe que o Douro lhe é fiel e antes da canícula sorvedoira, dá um ar de graça nas alpoldras , salpicando os alfaiates em redor.

Um bom almoço, depois do espírito animado, reconforta-nos com o torpor da placidez – na minha mente hoje bucólica – com o infinito curto adiante da Malhada Velha. Aqui é Vila Nova de Paiva, além, a um rufo de tambor, é Casfreires, terra dos Oliva Telles, que foram viscondes de sangue limpo.

O bácorozinho prantado nas travessas vem a baforar do forno e traz na pele crestada e estaladiça o afago sápido ao palato. A doçaria, apreceituada em sua tradição, porta o tom do caseiro dos ovos na doiradez do leite-creme e no mimoso da aletria. O mel, de rosmaninho, ainda zumbe acomodado ao leito cálido do queijo bem serrano.

EDIT

Os sobrinhos da 1ª e da 2ª geração já fazem sentir suas vontades, gostos e desejos e o chinfrim traquina em redor dá alegria esperançosa no futuro. Ainda não lêem – os mais novos – as rábulas diárias dos políticos dessas praças d’além. São inocentes e felizes.

Barrelas nunca foi de meias tintas. Tem carácter até no clima que é de robusta algidez pela invernia e de amornado sopro assim o estio se trombeteia.

Um dia assim completa-se com uma banca de “sueca”. Trinta mocas bem esgalhadas, umas discretas “arrenúncias”, uns macetes atrevidos e muita, muita recriminação ao parceiro que “não vê um boi d’Alvite”… pois alguém deve arcar com as culpas e, à portuguesa, é sempre o outro!

Mas o dia finda-se e lá volto a Viseu, a “melhor cidade para viver” – como diz o meu S. Francisco da porta afonsina da muralha do Arco, quando adrega a ver a luz por entre as suas columbinas cagadelas.