A vulgarização da Morte

A mentira, velha como o mundo, erigiu-se hoje a uma espécie de verdade oficial vigente, instituída, e tão ou mais válida que a verdade,  em queda vertiginosa por ter deixado de servir aos políticos e suas retóricas, a certa comunicação de massas, ou quarto poder. A verdade desacreditou-se.

  • 14:35 | Domingo, 18 de Outubro de 2020
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Ce que nous appelons vulgarité, c’est souvent le naturel.
François Mauriac – Journal (1952-1969)

 

Na longa diacronia das palavras, “vulgarizar” adequou-se a significados diferentes que, entre outros, vão desde o tornar comum, ao tornar desprezível ou à banalização…

Os tempos actuais vulgarizaram conceitos como a morte, a doença, a calamidade, a emergência, o estado de sítio, a mentira… Ou seja, como Mauriac referiu, tornou-os naturais.

E de facto, morrer sempre foi algo de tão natural como nascer. Mas raros são os que o aceitam de boa e pacífica mente.

A doença, como oposto à por todos bem-querida saúde, sempre foi tema da intimidade do indivíduo (um certo pejo) que, in extremis, a leva ao hospital, restringindo-a, ainda assim, a um público muito específico.

A calamidade… os romanos chamavam alguma doença que afectasse as hastes do trigo de calamitas, “a doença do cálamo”. Sendo o trigo a imagem da prosperidade e da riqueza em sociedades e épocas que assentavam a sua economia no sector primário, fácil é de perceber o valor semântico e a evolução da palavra.

A emergência opõe-se em tudo à desejável placidez que desejamos conceder à vida. Rompe com uma existência calma, harmoniosa, feliz.

O estado de sítio faz-me sempre lembrar o filme de Costa-Gravas “L’ État de Siège” (1972), desenrolado no Chile de Allende e uma poderosa denúncia do totalitarismo e suas mais amplas práticas terroristas, justificadas pela situação de excepção, de emergência, de calamidade…

Estado de sítio é “o instrumento utilizado pelo Chefe de Estado em que se suspende temporariamente os direitos e as garantias dos cidadãos e os Poderes Legislativo e Judiciário ficam submetidos ao Executivo, tendo em vista a defesa da ordem pública.”

Ah, a ordem pública…

A mentira, velha como o mundo, erigiu-se hoje a uma espécie de verdade oficial vigente, instituída, e tão ou mais válida que a verdade, em queda vertiginosa por ter deixado de servir aos políticos e suas retóricas, a certa comunicação de massas, ou quarto poder. A verdade desacreditou-se.

Todas se vulgarizaram.

Por isso, quando ligamos as televisões e ouvimos falar de mais dois, três, quatro ou dez mil mortes/dia, já pouco ou nada isso nos impressiona, como também já hoje aceitamos a doença – neste caso a epidemia – como algo de aborrecidamente natural, pelo menos enquanto não formos dela vítima.

A calamidade e o estado de sítio afinal são dois preceitos salvíficos que já muitos cidadãos gostariam de incluir na sua praxis vivencial quotidiana, como milagroso remédio para um mundo de súbito convulso.

A mentira, essa, tornou-se também a salvação das balofas ideologias, dos radicais fundamentalismos, o pão-nosso-de-cada-dia de quantos têm na verdade dos factos, já não ocultados só distorcidos, o seu pior inimigo. Trump personifica a sua epifania.

Ontem revi o filme de Spielberg, “The Post” (2017), sobre Nixon, a mentira/ocultação e a saudosa integridade de um jornal. Aproveite o domingo, caro leitor, e delicie-se com ele…

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