A “viriatolândia do 8 e do 80…

por Paulo Neto | 2014.07.14 - 10:34

O grego hêmera dá efémero. Aquilo que dura um dia.

Vivemos uma era da rapidíssima transitoriedade, mudança, descartabilidade, velocidade.

O século XX foi o dos grandes conflitos e das grandes invenções. A tecnologia, repentinamente, como se estivesse a dormir hibernada há séculos, acordou com uma fúria e potencial desvairados.

A sociedade de consumo é uma “besta” insaciável a precisar de alimento ao minuto. As invenções sucedem-se em cadeia. Cada novo gadget de sucesso perde a actualidade no dia em que é posto à venda. No mundo já não há grandes segredos e, dos mesmos pressupostos de que se parte nos EUA, parte-se igualmente na Finlândia, Suécia, China, Japão, Índia, Alemanha, etc…

Dantes, os afortunados recebiam um relógio de pulso quando iam a meio do ensino primário. Era no fim do liceu substituído, geralmente o Cortbert, por um Cauny Prima, mais vistoso e adulto. Hoje ou se têm 30 relógios a pilhas ou se vêem as horas no telemóvel de última geração. A correr…

Quando se tinha a primeira caneta, podia ser uma Pelikan ou uma Parker, era sinal de que já se sabia escrever e bem. Duraria até ao fim da vida. Hoje escrevem-se sms ou relatórios aleatórios nos tablets portáteis. E mal.

Um amigo meu tem o carro do avô comprado em 1928. Está em estado excelente. Aqueles 6 cilindros em linha, da Willys eram fiáveis. Um isqueiro Dupont que se adquirisse aos 20 anos – para os mais afortunados – morria lá em casa, aos 50 anos, numa gaveta, em estado “impék”. Quando se tinha a sorte suprema de se poder comprar uma casa, ela era para a vida. Os conceitos vivenciais mudaram inexoravelmente.

Porém, os dias modernos não se sustentam na durabilidade, por causa do consumismo e da veloz obsolescência do produto. Todos os dias são apresentados, por exemplo, automóveis menos poluentes, mais rápidos, mais económicos, com menos cilindrada, motores pequenos em parceria com meia dúzia de marcas globais, mais leves, mais seguros, esteticamente mais apelativos. Contudo, o avô do meu amigo, de 1928 a 1968, em 40 anos, rolou com o seu veículo menos de 100 mil quilómetros. Hoje, sem esforço e por necessidade, essa distância cumpre-se em 2/3 anos e os carros aguentam 400 mil quilómetros, se devidamente assistidos.

Parece haver aqui incongruência. Mas não. Hoje, a mutabilidade, a tal mutação vertiginosamente acelerada determina, também e a nível de mentalidades a consciência de quão tudo é efémero, de como tudo flui tão rapidamente neste espaço encurtado por um tempo feérico e muito mais sentido quanto o mundo inteiro está ao alcance de um voo de mais ou menos horas, os desejos posicionam-se no extremo do dedo que carrega num botão, a matéria-prima tornou-se despicienda por oposição à matéria-cinzenta. Os grandes territórios deixaram de ser na sua extensão geográfica um factor de potência impositiva, sendo mais das vezes um caldeirão onde cozem todas as espécies de conflitos étnicos, religiosos e sociais. Os conflitos vulgarizaram-se e deixaram de ser notícia inquietante. O mundo auto-extermina-se nuns lados e desmesura-se noutros. Esse mundo que e face às agressões humanas se vai alterando e presentificando com comportamentos inesperados, imprevisíveis e calamitosos…

O homem, nalgumas partes do planeta não pensa, conscientemente, em toda esta problemática de (re) evolução. Pensa apenas em sobreviver à falta de água, à carência de alimentos, à insuficiência de medicamentos. Se a esperança de vida – o que não quer dizer, de modo algum, qualidade de vida – aumenta na Europa para os aproximadamente 80 anos, em países de África desce em queda livre para os 40…

Temos assim um mundo absolutamente assimétrico onde, se por um lado se desenvolvem gerações sucessivas de acomodados, por outro se criam gerações sucessivas de revoltados.

Ademais, os instrumentos de controlo dos acomodados são letais, virais, anónimos, camuflados. Giram em torno do subconsciente e são instilados sub repticiamente para gerar a sujeição. Mas no divertimento, no bem-estar, no conforto, na ilusão… O homem adormece hipnotizado e acorda escravizado. A vida dura um dia, à escala planetária. Por isso é efémera como uma bonita flor tão bela e tão já fenecida…

Viseu é uma “viriatolândia” acessória e efémera. Nada se constrói de substantivo, de duradoiro, de amplo alcance. A ilusão do bem-estar, o atordoamento do divertimento é um absinto entorpecedor. Entretanto, não há política de criação de emprego, todos os dias encerram comércios por insolvência, as PME vivem com dificuldade crescente, não se captam investimentos. Esperam-se os dinheiros do próximo quadro comunitário para as “adelapes” locais fazerem mais uns floreados. E as “beiras-amigas” e tal. E gasta-se muito, muito dinheiro dos contribuintes no acessório, que dura o tempo de um quarto lunar.

Mas atordoa… e ilude. E se as pessoas querem atordoamento e ilusão, a “senhora câmara” dá.