A palavra: loucura e caos

por Paulo Neto | 2014.02.25 - 21:17

 

“No nosso tempo, a linguagem política sofreu a contaminação da opacidade e da loucura. Nenhuma mentira é tão brutal que não seja possível afirmá-la com veemência, nenhuma crueldade é tão abjecta que não possa haver quem a justifique na verborreia do historicismo. A menos que sejamos capazes de devolver às palavras dos nossos jornais, das nossas leis, e das nossas acções políticas uma certa clareza e um sentido responsável, as nossas vidas aproximar-se-ão cada vez mais do caos. E instaurar-se-á assim uma nova idade das trevas.”     Steiner, G., Linguagem e Silêncio, Gradiva, 2014

 

 

Há uma nova poluição na atmosfera: o ruído feito por políticos, comentadores e responsáveis pela informação.

Cada vez mais, o político de pacotilha sente necessidade de engrandecer a pequenez dos seus actos, de dar dimensão à sua meanha estatura de homem público e de conceder cunho irrefutável às mediocridades que profere.

Do nada faz o infinito e a sua arquitectura esteia-se num discurso e imagem desvirtuados do real, ou então, tão falaciosa e ardilosamente construída, que no imediatismo do momento e no consumismo acriterioso das massas, a sua assimilação – parcial – é imediata. E quando afirmo ser parcial estou a ser modesto, porque a maior parte dos destinatários da mensagem, não só não a descodifica como, por não a entender, dela se afasta reverentemente como se envolvida numa mística radiante, aceitando-a sem a questionar.

Por isso ouvimos prelecções absolutamente crípticas, usando de uma gíria tecnicista, nomeadamente no domínio do “economês” que, em Portugal, sou instado a crer, mais de 80% da população não a percebe nem assimila. A tal “contaminação da opacidade e da loucura”, que Steiner refere.

O recobrimento opaco só tem um objectivo: esconder a verdade factual repassando-a com um brilhante pó-de-arroz cosmético para encobrir a desfiguração.

Esta distorção do real, ao servir-se das palavras como um filtro, está a contaminá-las de tal forma que lhes retira o valor inicial, todas as virtudes etimológicas e a distinção e o fulgor que os séculos lhes conferiram.

Raramente a palavra na boca do político é hoje tida e aceitada como uma verdade. Quando o que o político afirma não é tido como uma mentira é, no mínimo, encarado como um adulteração do real ou verdade de circunstância, e como tal, efémera e insustentável.

Hoje, os mais inábeis na “arte da propaganda” rodeiam-se de “ghost writers” que no turno da noite, como numa fábrica de tijolos, produzem aquelas que vão ser as verdades do dia.

Quando o cidadão perceber que na sombra, clandestinamente, há uma indústria tenebrosa a transformar as mentiras em verosimilhança, será tarde de mais, porque as malfeitorias entretanto feitas e os danos dolosamente causados serão inultrapassáveis.

Entre o poder político e o cidadão está um outro poder: o da comunicação social. Ultimamente é crescente o apetite por essa velha dama. Diria até que, de modo algo paradoxal,  directamente proporcional à falência de muitos meios de informação, mormente os regionais, canibalizados pelos tubarões dos médias, pela falta de mercado retributivo para os manter – a publicidade – e pela primazia que hoje uma franja crescente da população, mais activa, mais interventiva, crítica e selectiva concede aos meios digitais que os mantêm informados de tudo, em todo o mundo, a custos zeros.

Hoje é bom de perceber que os periódicos regionais não têm venda em banca, são distribuídos de graça pelas mesas de cafés ou vão encavalitados em semanários nacionais – pagando aos monopólios da distribuição para isso. Ou seja, pagam para ser vistos e assim justificar a dura tarefa dos comerciais na venda da publicidade.

Acresce que cada vez mais aparecem “cabeças de turco” das forças políticas que não dão o rosto, disfarçados de empresários ou até de jornalistas: à escala centesimal, os berlusconis do métier. O “caos” por Steiner referido.