A Nova europa –» a do medo

por Paulo Neto | 2015.11.21 - 15:52

 

 

Hoje ouvi o embaixador de Portugal em Paris afirmar que o terrorismo jihadistas era “um atentado à liberdade e aio quotidiano dos cidadãos”. Plenamente de acordo e isto é um quase lugar-comum.

O rosto fundamentalista do mal, velado ou descoberto, tem plurais objectivos no alcance dos seus actos.

Um deles é a mediatização global centrada na sua “causa” através daquilo que o mundo lhes ensinou chamar a atenção das audiências: a destruição e a morte.

Atenção despertada, à “causa” acorrem os teddy-boys enfastiados e os deserdados da fortuna, os “banlieuesards” de todos os ghettos da velha Europa, que ruminam doses maciças de vídeo e real violência quotidiana e que são uns marginais das sociedades consumistas e pequeno-burgueses “refasteladas” às suas espaldas num lado um pouco menos cinzento da vida.

Mas acorrem também, e com principal incidência, os nativos de uma África desde sempre abissalmente desigual, com forte incidência de países outrora colonizados pela França e pela Bélgica, como Marrocos, Argélia, Tunísia, Congo… onde também foi deixado um legado duplo: da língua e da revolta.

Sem falar do Irão, Iraque, Líbano, Síria, Somália… países onde há décadas se acorda ao som das explosões de bombas e se adormece ao tom das rajadas de metralhadora.

Que têm eles a perder?

apocalypse

Em 2001 publiquei um artigo numa revista académica (Itinerários) onde me referia ao “imenso caldeirão posto ao fogo, a cozer em lume brando, onde referviam todas as iras fundamentalistas atiçadas pelas achas dos interesses inconfessáveis da cupidez ocidental/oriental.” Premonitório…

O ouro negro, o mega negócio do armamento, as convulsões sociais são as “tábuas da lei” dos senhores da guerra. Estes são as verdadeiras fontes do mal que nos assola.

Outro dos objectivos dos seus sicários é a instituição do terror, da instabilidade diária, do medo e da desconfiança na trivialidade do nosso agir. Tais pressupostos permitem caucionar o estado de sítio, para alguns primordial, até e porque desvia a atenção de outras temíveis realidades e gera negócios arqui-bilionários em diversos sectores, da banca à indústria, ao imobiliário, etc.

Outro objectivo será ainda a tal “alteração do quotidiano” ou mudança radical dos hábitos dos cidadãos “outrora felizes” por forma a permeabilizá-los a qualquer insidiosa mudança que venha cinicamente recoberta de vistosas e falsas roupagens da pacificação… Houellebecq – que não faz parte dos “meus” escritores – retrata-o com perícia adivinhatória em “Submissão”.

Para já, o espaço Schengen mudou as regras e impôs as suas restrições. De facto, o pânico e a eliminação de acções terroristas justifica-o. Mas não esqueçamos o retrocesso civilizacional e de coerção das liberdades dos cidadãos que tal significa.

schengen copy

No final do mês passado tive que me deslocar a Madrid. A escassos quilómetros da fronteira de Vilar Formoso, de repente, a estrada cerrou-se e um aparato policial de cinema afunilou-nos. Jipes, metralhadoras, cães, coletes anti-bala, capacetes com viseira e etc. entraram , de repente, numa viagem calma que se fazia ao som de uma música suave e a um ritmo descontraído de cruzeiro para nos “dizer”: Esta é a nova Europa gerada por uma mão-cheia de radicais e gerida por um bando de políticos idiotas cevados a grãos de ouro.

Habituemo-nos, pois!