A neve da Nave na pena de Aquilino

por Paulo Neto | 2016.02.28 - 16:45

 

 

Gosto de Aquilino como de nenhum outro escritor. A sua vida é um modelo de coerência e um hino à liberdade. A sua obra é uma loa à vitalidade, ao homem e à natureza.

Vou-vos deixar com alguns excertos, dois ou três, depenicados de “O Homem da Nave”, Bertrand, 1954.

 

“Ontem passaram automóveis e mais automóveis de Lisboa com damas e lirós e senhores tão inchados em seus abafos de lãs e peles, com luvas tão felpudas e óculos tão extravagantes, só a ponta do nariz a luzir, que nem caretas de carnaval. A vida está para eles. Vinham ao cheiro da neve e vão tê-la. Que tinha deitado a barriga porque caíram umas farripas antes de Santa Luzia!? Qual, vem aí uma nevasca que ficamos atolados até ao pescoço. (…) Mal espreitara o sol, rompendo um chão baixo, sem nuvens, tapado como um capuz. Subitamente o céu escurecera ainda mais e começaram a zebrá-lo pequenos flocos de uma brancura fulgurante, perceptíveis sobretudo quando vinha a sua algidez chapar-se na cara ou nas mãos. Era uma escumalha de prata, volátil como moscas, e que descia do ar numa leve e mesurada farândola. Ia nevar, ou é que não passavam de zângãos precários estes flocos fugidiços? (…) Agora, sim, caía neve. Caía em fagulhas, luzentes umas e miúdas, outras como farrapinhos dobrados e, onde poisassem, deixavam branquidão. Mas até baixar à terra bailavam sozinhas ou rodopiavam entre si, meia volta e vira, em vagas oblíquas, intermitentes. Já o arvoredo empoava e a terra era uma preia-mar de negror e claridade. (…) em breve a neve se abatia sobre a terra, ininterrupta e difusa, em espessos e grossos flocos remansados. Trazida nos braços do Suão, o que era pior que sobraçada pelo vento de cantaril, dançava a pavana a digno compasso, animada dum belo espírito terpsicórico. Pouco a pouco cobria os caminhos com sua alcatifa fofa, as árvores com dalmáticas de alegria, e os amieiros, um ou outro carvalho, que davam ideia com sua robustez afrontosa de esperar impassíveis todos os flagelos do mundo, começavam a perder o híspido e militar aprumo, ao mesmo tempo que demudavam em seu carregado verdor. Já os pinheirinhos novos a neve os convertia em fogaças ou antecipadas tanenbauen, que o Natal ainda vinha longe. Os velhos pinheiros recebiam a transfiguração ainda mais torvos que mudos em sua catadura de gigantes. Uma ovelha perdida com suas guedelhas salpicadas, esbarregava-se e corria à doida, saltando os trolhos de centeio, em sentido contrário à nossa marcha. Suspendia-se um instante, e volvendo a cabeça para o nosso lado e julgando-nos o inimigo a avançar para ela, rompia de novo à desfilada e a balir. Ultrapassámos a folha e aqui e além, as águas novas, que tinham caído nos fins de Outubro, precipitavam-se em jactos dos cômoros com uma brusquidão límpida de cutelo a afiar num rebolo. As vacas dirigiam-se para os pastos, tão engoiados os pastores nas capuchas, que só se lhes viam os olhos, tais como os belos skieurs chegados de Lisboa nos ronronantes espadas. (…) Nevava com denodo. (…) A neve caía mais densa e apenas se distinguiam os caminhos pela depressão que acusavam ao rés do solo. (…) Depois, à lareira, mudada a roupa e feitas as abluções, vi a neve cair. Eram asas, asas brancas que desciam rentes à vidraça, se afundiam no chão, umas atrás das outras, sem fim, toda a tarde, toda a noite.

De madrugada um lençol espesso, invariavelmente branco, cobria a terra. Onde haviam os passarinhos de ir comer? Eles lá andavam saltitando nos espaços desnevados do pátio, voejando de palhiço para palhiço, debicando no esterco da abegoaria. Mas havia sol, um sol claro, jovem. Seguro de que ia cavalar, rebolar-se, espolinhar-se na neve. A natureza recebia com jucundo parecer aquela espécie de epifania. Já a terra, a feia terra, acordara cândida como uma noiva antiga. Tinham-se sumido todas as suas torpitudes e, olhando à volta de casa, as cabanas e casebres eram palácios esplêndidos.”

E pronto, depois deste texto, as achas da lareira crepitam convidativas…

lamoiaoaqu low