A cultura dos “chulos sociais”: peça em 3 actos tristes

por Paulo Neto | 2016.02.27 - 14:37

 

Introdução:

Os célebres CEI (Contrato Emprego Inserção) e os Programas Ocupacionais (POC) podem ter tido na sua origem alguma bondade, boa-intenção e solidariedade, porém, a breve trecho, a onda de abusos criados, nomeadamente pelo Estado e pelas IPSS, gerou uma mama boa de chuchar com novos escravos a passarem, de seguida, para as entidades privadas, como mão-de-obra muito barata e paga pelo contribuinte, no caso da CEI+ (uma variante) até 90% e abaixo do salário mínimo nacional (419€).

O contratado, por seu turno, carreia com todos os deveres dos seus “colegas” mas sem direitos. É uma exploração vil na qual o Estado e as IPSS dão o exemplo para que qualquer direito laboral, nas empresas privadas, seja “letra zero”.

Aliás, sempre nos intrigou muito que a IGT não tenha a capacidade de começar, moralmente, a dar o exemplo inspeccionando o próprio Estado e que o IEFP tenha a seriedade de não fazer, com estas jogatinas, autênticas prestidigitações estatísticas.

 

Desenvolvimento:

O governo cessante foi exímio em criar a mão-de-obra descartável, gratuita, inconsequente, trágica, desequilibrada, instável dos CEI / POC’s e outros que tais.

Durante seis meses/um ano arrebanhava “escravos” desesperados por algo que se parecesse com um emprego, explorava-os até ao tutano e depois de melhorar as performances da estatística do desemprego em Portugal, descartava-os como fralda mijada.

Os POC’s integravam por um átomo de tempo uma equipa, um ambiente de trabalho, uma estrutura sócio-profisssional. Nesses seis meses podiam até comprar um par de calças, uns ténis novos, ir ao cinema, e alguns, até, dar de comer aos filhos… sem ter que recorrer aos seus extenuados mas sempre disponíveis progenitores.

Para isso tornavam-se corredores de fundo das mais incríveis maratonas e faziam tudo e muito mais que tudo na esperança, cedo perdida, de ao fim do tal “estágio” serem integrados, por natural direito, mérito e competência na estrutura “acolhedora”.

Porém, ao fim do período comparticipado recebiam a recompensa: o chuto no traseiro e as salvíficas palavras ilusórias: “Isto agora está mau, mas mal melhore logo te chamaremos.” Mas não chamavam. Em vez disso, iam ao centro de emprego mais próximo recrutar renovada mão-cheia de putativos jovens e desempregados de imenso potencial, credulidade, disponibilidade e esperança.

Isto tornou-se um maná para empresas públicas e privadas; os “descartáveis” eram sempre bem-vindos e aos magotes, porque representavam mão-de-obra-quase-de-borla e a capacidade de fazer aquilo em que mais ninguém queria tocar. Os paus-para-toda-a-colher.

 

Conclusão:

Daqui surgiu uma nova cultura, numa incipiente classe dirigente (ou dirigível) que começou a ver toda os colaboradores, por mais potenciais mais-valias que fossem ou pudessem ser, como a nova horda de “escravos” ao seu serviço de “negreiros sociais”, para continuarem a usufruir, aumentando-as substancialmente, das regalias entretanto acrescidas com a redução do preço do trabalho e extensíveis à sua corte de subservientes “lambecus”.

Nefasta gente, egoísta e cega, medíocre, sempre trazidos ao colinho de terceiros e julgando-se predestinada, por mérito pessoal, para ser rei de um olho em terra de cegos.

Este bando de “proxenetas sociais”, na sua cultura de oportunismo, são os germinados frutos transgénicos que o governo semeou. Oportunistas, prepotentes, neuronialmente limitados, cevam-se com regozijo no chiqueiro da milenar exploração humana.

Esta gentalha está a prazo, porque sob a capa do social-cinismo, já se lhes vê a nudez e sob o pálio dos contritos apaniguados-sacristãos, a hipocrisia começa, incipiente, a refulgir à transparência.

Oxalá este novo Governo, socialmente assumido, ponha enfim termo a esta exploração laboral indigna e vil.