As funcionárias dos CTT da Quinta do Galo são umas heroínas…

por Paulo Neto | 2016.02.25 - 10:42

 

Raramente vou aos CTT. Só mesmo quando me é de todo inultrapassável. As longas bichas de espera, o incómodo tempo que lá se passa, o livrito que se leva e lê em pé, os registos que aproveitamos para fazer ali, com a calma que tão arredia anda dos nossos dias, aproveitando a oportunidade para nos esmerarmos na mais elegante caligrafia cursiva.

Depois, começamos a ler os títulos dos livros – muito desinteressantes do tipo aquele bate-orelhas-locutor-José-qualquer-coisa – e acabamos a olhar de soslaio uns para os outros, mirando-nos, captando um pormenor fugidio e fingindo que somos míopes.

Calma. Ainda estão 14 pessoas à nossa frente e um cliente, daqueles muito chatinhos quer uma caixa à justa para uma encomenda que pretende enviar. A funcionária, estóica, vai lá dentro procurando a látex-caixa. Esta é grande, aquela é pequena, essoutra muito apertada… Apetece dar umas fueiradas no tipo. Mas lembramo-nos que somos uns bons-serás pacifistas e sem cara para um upercut…

De cada vez que o tlim da mudança do número se ouve, 44 olhos se erguem implorativos. Ainda não…

No balcão três gentis senhoras por volta dos 30/40 anos fazem os possíveis para serem cordiais, corteses, pacientes, eficazes. E conseguem.

Depois de estarem ali 8 horas ainda resistem e com sublime eficiência atendem e dão resposta a todos os utentes. Mesmo àquele, com ar sofrido, que aproveitou a sua vez, o seu tempo de antena, para contar o caso da esposa doente há 11 anos com nove maleitas umas piores que as outras. A funcionária sorri-lhe e diz-lhe palavras encorajadoras… Abençoada santa.

Finalmente o 201 chamou por mim. Fui atendido com calma, serenidade e bom aconselhamento, numa dulcificada paciência que já não existe…

 

Os CTT em Portugal tiveram gestões difíceis, ora dúbias, ora prejudiciais, ora, ora… Foi o campeão Pires de Lima, o cervejeiro, que os despachou rendendo 909 milhões ao erário – dizem que público.

Foi em finais de 2014 que mais esse “blason” se foi. Hoje é 100% privada e meteu uma coisa chamada Parpública (deve ser abreviatura de “parou de ser pública”). Agora já deve dar lucro e, se bem me lembro, o governo vangloriou-se de a venda ser “um enorme êxito”, os investidores “do melhor que há” e, além disso – e isto é fundamental – provou a “confiança em Portugal.”

Foi a seguir à EDP, à REN, à ANA, à ENVC, à TAP e não me lembro mais nomes. Foi um outlet.

Com este governo. O PSD e o CDS fizeram o gáudio dos “dears-markets”. Só precisavam de mais 4 anitos para venderem também os portugueses. Talvez para o Brasil, China ou Angola…

Depois e entretanto fecharam-se uns balcões, ali, aqui, acolá e acoli; foram-se despedindo uns funcionários; arranjando umas empresas sub-empreiteiras que deixaram de fazer canalizações ao domicílio para entregar encomendas.

Nos “correios” vendem-se livros, cd’s, lotaria, manuais escolares. Faltam as cebolas, a broa e o chouriço. Mas hão-de chegar.

A minha vénia àquelas três senhoras que trabalham na Quinta do Galo.