A adoração do sol

Hoje pela primeira vez o Sol nasceu vivo e nítido por cima do horizonte lamacento. É um sol polaco, frio, branco e longínquo, e não consegue aquecer para além da epiderme.

  • 22:15 | Quarta-feira, 15 de Abril de 2020
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Primo Levi explica que todas as manhãs, quando ele e os companheiros de desgraça se perfilavam para encetar o trabalho, e o vento lhes cortava a pele e provocava «arrepios violentos», e «tudo em volta» estava cinzento, ele e os outros condenados de Auschwitz comentavam o nascer do sol porque dele acreditavam vir a salvação. Cada minuto a mais de sol, cada infinitésima de grau a mais na temperatura, cada amanhecer menos escuro era uma esperança de que a Primavera de 1944 não tardava. Teriam trabalhos forçados, cansaço, fome, doença e menos frio. Até que um dia.

“Hoje pela primeira vez o Sol nasceu vivo e nítido por cima do horizonte lamacento. É um sol polaco, frio, branco e longínquo, e não consegue aquecer para além da epiderme; mas quando se libertou das últimas neblinas, um murmúrio percorreu a massa descorada que somos, e quando eu também senti a tepidez através da roupa, compreendi como se pode adorar o sol.”

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Publicado em Cultura