Ainda não consegui entender a razão que leva uma pessoa a esconder-se atrás de um perfil falso ou de uma página sem administrador para dizer o que pensa e desabafar todas as frustrações que lhe enchem a alma viperina. Esforço-me, mas não atinjo. Confesso a minha incapacidade. Não acompanho o alcance. Viro-me, ponho-me no papel do anónimo, mas não resulta. Assumo a minha impotência para desvendar os motivos, sabendo que nunca poderão ser bons. Não é saudável, não é positivo, não é higiénico proceder desse modo. Colocar uma máscara para escrever seja lá o que for não é decente. É hipocrisia. É um embuste. E revela um doentio desvio de personalidade.
Infelizmente, as redes sociais – o lugar em que tudo se permite e a impunidade é lei – estão cheias dessas ratazanas. Porque este vício está a pegar e tem seguidores que se divertem com as ordinarices bolsadas em espasmos, quis escrever sobre essa erva daninha, esse arbusto inconveniente que detona de vez a seriedade e a credibilidade de quem, sem se dar conta do prejuízo, já as perdeu há muito.
Fico desapontado, não pela figura triste que a falta de carácter faz, mas por nos condenarmos à futilidade e à vulgaridade, por subvertermos a liberdade, quando ela nos é permitida. Gente que se autocensura merecia a volta do Estado Novo, dos beleguins e delatores que o alimentaram e robusteceram. É preciso carregar muita invalidez mental para se dar a tanta mediocridade. Só pode ser velhaco quem assim procede. E néscio, porque não há mentira que dure sempre. Um comentário, uma coincidência, destapam o manto e mostram os interstícios de quem tanto labutou nas artes servis da manhosice. Incapazes de um propósito saudável, de uma ideia meritória, de um fazer reconhecido, mexem-se bem nas atitudes doentias. São aves de plumagem caduca. É gente pastosa.
Haverá, porém, uma razão próxima para esse dislate: a fragilidade dos argumentos, a ausência de razão, o medo de ser responsabilizado, o receio de ser julgado. Mas a maior de todas é fulminante e arrasadora: quem se esconde terá a noção de que, se desse o nome, cairia sobre ele uma enormíssima e pesada censura social e os seus argumentos seriam ridicularizados. E isso basta para, à cautela, se cobrir com as vestes de um pusilânime tasqueiro. Porque um anónimo é oleoso, fugidio, gorduroso, não tem ponta por onde se lhe pegue.
Rebelo Marinho