Nenhum extremismo é inocente

Os membros da organização terrorista visavam a subversão do regime democrático, a imposição de um modelo autoritário com o recurso à violência para alcançar os seus objetivos ideológicos, produzindo armas e peças de armas em 3D. O perigo é real, há treino militar, fabrico e posse de armas, planos que atentam contra a vida de cidadãos.

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  • 16:16 | Quarta-feira, 24 de Junho de 2026
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Não existem extremismos benignos. Quando a democracia é substituída pela lógica do inimigo, da exclusão e da violência, o resultado é sempre perigoso, independentemente da sua origem ideológica. Agudizam-se os populismos e banaliza-se a violência. Da França à Irlanda, passando por Portugal, multiplicam-se sinais preocupantes de radicalização política e social. Embora com contextos distintos, estes episódios têm um denominador comum: a normalização da violência e dos discursos de ódio.

Os exemplos recentes de violência política mostram que a radicalização pode assumir diferentes formas e proveniências ideológicas. Porém, o caso português mais recente e mais grave é o do Movimento Armilar Lusitano (MAL). Em Portugal, quem acredita que estas ameaças pertencem apenas a outras geografias deve olhar para o recente processo movido pelo Ministério Público contra membros do MAL. O Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) deduziu acusação a nove arguidos, quatro deles em prisão preventiva, membros do grupo neonazi (MAL). Foi-lhes imputado o crime de organização terrorista. Preparavam um ataque, com granada, ao Primeiro Ministro. O Ministério Público (MP) e a Polícia Judiciária (PJ) identificaram uma lista de alvos, com mais de 80 personalidades e 40 políticos. Eram mais de 120 os “indesejáveis”.

Sob o pretexto de proteger a sua raça, os elementos do grupo diziam que os portugueses heterossexuais eram superiores “a todos [os] que fossem não brancos, judeus, ciganos, imigrantes com origem brasileira, africana, asiática e pessoas da comunidade LGBTQI+.” Os arguidos defendem o nazismo e negam o holocausto. Estas ideias são tenebrosas e propagam-se através das redes sociais, amplificadas por algoritmos que privilegiam a polarização, a indignação e o conflito.


Os membros da organização terrorista visavam a subversão do regime democrático, a imposição de um modelo autoritário com o recurso à violência para alcançar os seus objetivos ideológicos, produzindo armas e peças de armas em 3D. O perigo é real, há treino militar, fabrico e posse de armas, planos que atentam contra a vida de cidadãos.

Entre os alvos identificados encontravam-se políticos, jornalistas, comentadores, artistas e figuras públicas de diferentes sensibilidades ideológicas, revelando a amplitude da ameaça. A propagação dos movimentos extremistas alimenta-se da desinformação, da falta de memória histórica, da fragilidade do pensamento crítico e de falsas promessas.

Perante este cenário, importa refletir sobre os instrumentos de prevenção democrática. Um deles, talvez inesperado, é a arte. É de enorme atualidade e interesse o “grito de alerta” que podemos retirar da exposição “Vexation of Spirit“, em Serralves, do colecionador Christian Duerckheim, que aprendeu a olhar para aquilo que os outros não reparam.

Duerckheim acredita no poder da arte para ensinar as novas gerações a desconfiar das promessas dos populistas e dos aspirantes a ditadores. Como alerta, “seguir cegamente quem nos promete prosperidade pode ter consequências catastróficas“. O perigo, afirma, está de volta e exige uma cidadania mais crítica e mais informada.

A história demonstra que os extremismos não surgem de um dia para o outro. Crescem lentamente, alimentados pela indiferença, pela desinformação e pela erosão do pensamento crítico. Combatê-los exige mais do que condenação moral: exige educação, memória histórica, cultura democrática e cidadãos capazes de questionar quem promete soluções fáceis para problemas difíceis. A democracia não morre apenas pelas mãos dos extremistas, morre também quando os democratas deixam de estar vigilantes.

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