A cidade acorda sempre cedo. Como se alguma vez tivesse, sequer adormecido. Mas antes do sol tocar nos prédios e a luz entrar pela casa dentro, já existe alguém a correr para a paragem de autocarro e na terceira tentativa de desligar o despertador, ou alguém a responder a mensagem com os olhos ainda meios fechados ou simplesmente a ter tempo para as ler. Prometemos cumprir todos os dias a promessa que “ amanhã vai ser um dia mais calmo” ou “ vamos cumprir todos os objetivos”. Mas o amanhã, tal como ontem e hoje, quase sempre chegam igualmente com a mesma pressa.
Alguém entra pelo café, ou no portão da escola do filho, e olha para os ponteiros do relógio que está no pulso, como se só pelo olhar fizesse parar os seus ponteiros e tivesse alguma autoridade e controlo sobre o tempo. Mas todos os dias, num filme repetido, há passos largos, rostos cansados, silêncios longos, e expressões de quem precisa de mais tempo.
Tornamo-nos escravos de nós próprios, nas nossas metas, desejos e ambições, pensamos que somos mais felizes quanto mais rápidos atingirmos o nosso “target “, quando no fundo só nós tornamos escravos de nós próprios.
Vivemos como se a vida fosse uma corrida contra algo invisível. Trabalhamos para ganhar tempo e depois gastamos esse mesmo tempo a recuperar do tempo em que trabalhamos para ganhar tempo… irónico, talvez.
Guardamos mensagens para responder para depois, adiamos sonhos e projectos, abraços para outros dias, visitas, e sem dar conta empilhamos viver para depois.
E o maior luxo dos nossos dias, não é dinheiro, nem viagens, nem todas as tecnologias que temos disponíveis ao esticar do braço. É sentar sem pressa, conversar olhos nos olhos, caminhar sem destino, ouvir uma música até ao fim sem abrir notificações.
Talvez ainda tenhamos tempo.
Tempo para pedir desculpa antes que o orgulho endureça.
Tempo para visitar aqueles de quem sentimos falta.
Tempo para mudar de caminho, de ideia, de vida.
Tempo para perceber que nem toda a demora é perda.
Algumas são apenas pausas necessárias para o coração acompanhar os passos.
E, no fundo, enquanto houver vontade de recomeçar, ainda teremos tempo.
Jéssica Ferreira
Advogada