Como se abandona um filho?

Contudo, abandonar um filho não começa no instante em que se deixa uma criança à mercê da solidão numa berma de estrada. Começa muito antes. Começa quando o amor se deteriora, quando a responsabilidade de cuidar deixa de ser vocação e passa a representar um fardo insuportável.

Tópico(s) Artigo

  • 10:08 | Sexta-feira, 22 de Maio de 2026
  • Ler em 2 minutos

Na berma de uma estrada anónima, entre o calor abrasador do Alentejo e a penumbra serena dos pinheiros, duas crianças permaneceram à espera. Não aguardavam o verão, um autocarro tardio ou brinquedos dispersos na mata. Esperavam pelos adultos que lhes haviam prometido regressar.

Disseram-lhes que era um jogo. E que a única regra consistia em fechar os olhos.

Talvez resida aí a dimensão mais cruel desta história. A infância deveria habitar um território absoluto de proteção, verdade e ternura. Uma criança de três ou cinco anos acredita cegamente quando alguém que ama lhe murmura: “fecha os olhos”, “fica aqui”, “já voltamos”.

O mundo, para uma criança, ainda desconhece a perversidade da mentira. E foi precisamente nessa inocência imaculada que alguém decidiu apoiar-se para converter o abandono num gesto disfarçado de brincadeira.


Relataram que caminhavam desorientadas. Levavam consigo uma mochila com água e comida, como quem se prepara para uma travessia breve. Contudo, abandonar um filho não começa no instante em que se deixa uma criança à mercê da solidão numa berma de estrada. Começa muito antes. Começa quando o amor se deteriora, quando a responsabilidade de cuidar deixa de ser vocação e passa a representar um fardo insuportável.

Ainda assim, um desconhecido  sem nome, sem reconhecimento, sem medalhas  interrompeu o seu caminho e fez aquilo que sustenta a própria humanidade: protegeu.

Talvez um dia estas crianças esqueçam a estrada, o calor inclemente do Alentejo, a sombra dos pinheiros ou a falácia cruel do “jogo”. Mas dificilmente esquecerão a sensação lancinante de terem sido deixadas para trás, encobertas por uma mentira fria e cortante.

Alguns abandonos acontecem à beira da estrada. Outros consumam-se silenciosamente dentro de casa. Mas todos nascem no mesmo lugar: na ausência do amor incondicional que qualquer criança espera sem negociar, exigir ou implorar apenas por existir.

Não é sobre justiça. É sobre amor…

 

Jéssica Ferreira

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
4