Na berma de uma estrada anónima, entre o calor abrasador do Alentejo e a penumbra serena dos pinheiros, duas crianças permaneceram à espera. Não aguardavam o verão, um autocarro tardio ou brinquedos dispersos na mata. Esperavam pelos adultos que lhes haviam prometido regressar.
Disseram-lhes que era um jogo. E que a única regra consistia em fechar os olhos.
O mundo, para uma criança, ainda desconhece a perversidade da mentira. E foi precisamente nessa inocência imaculada que alguém decidiu apoiar-se para converter o abandono num gesto disfarçado de brincadeira.
Relataram que caminhavam desorientadas. Levavam consigo uma mochila com água e comida, como quem se prepara para uma travessia breve. Contudo, abandonar um filho não começa no instante em que se deixa uma criança à mercê da solidão numa berma de estrada. Começa muito antes. Começa quando o amor se deteriora, quando a responsabilidade de cuidar deixa de ser vocação e passa a representar um fardo insuportável.
Ainda assim, um desconhecido sem nome, sem reconhecimento, sem medalhas interrompeu o seu caminho e fez aquilo que sustenta a própria humanidade: protegeu.
Talvez um dia estas crianças esqueçam a estrada, o calor inclemente do Alentejo, a sombra dos pinheiros ou a falácia cruel do “jogo”. Mas dificilmente esquecerão a sensação lancinante de terem sido deixadas para trás, encobertas por uma mentira fria e cortante.
Alguns abandonos acontecem à beira da estrada. Outros consumam-se silenciosamente dentro de casa. Mas todos nascem no mesmo lugar: na ausência do amor incondicional que qualquer criança espera sem negociar, exigir ou implorar apenas por existir.
Não é sobre justiça. É sobre amor…
Jéssica Ferreira