Sem querer, talvez estejamos a construir uma sociedade indutora de extremos injustos e de medos calculados. E isso não só é questionável, é também perigoso. Castrador. Estamos a construir uma sociedade inspirada em modelos assépticos, esterilizados, puros. Porém, tudo o que é bento e pio está desprovido de alma, de fraquezas e de superações. É tudo certinho. Em demasia. Talvez estejamos a quebrar nós e a deixarmos de ser nós.
Esta comunidade actual é uma fábrica de comportamentos perfeitos e obedientes que os sábios, numa azamboada de melros, validam com assinaturas não reconhecidas. Talvez que à procura da perfeição e encapsulados pelo medo, deixemos cair a autenticidade, a proximidade, os afectos. Mas isto não é equilibrado. Estamos a desenvolver uma comunidade de robôs. Indiferentes, frios, distantes.Talvez as circunstâncias objectivas e os excessos de quem estuda demais por manuais desajustados da realidade, produzidos em laboratórios de ideias importadas, contribuam para este mundo disfuncional que, por cautela e defesa, vamos alimentando. É mais cómodo e não dá trabalho.
Eis o apogeu do absurdo.
Dá-se uma bofetada pedagógica na cara de um filho, entram-nos pela porta adentro, num cordame de vozes alucinadas e numa correnteza de ditirambos, os notários das virtudes, com gente armada à popa, em pose guerrilheira, declinando normas e obrigações escritas, um relambório indecifrável, recitando pastorais evangelizadoras, um horror de filme, gente que ainda não viveu a vida e teve sempre sopa na mesa;
dá-se um “calduço” a um aluno, faz-se uma vigília intercultural, vem o pelotão dos bons costumes municiado com as sagradas escrituras num braço, e as cruzes das penitências salvíficas no outro, directores de turma, departamentos e conselhos pedagógicos num transe de ânsias, prenhes de proclamações, beleguins do mal e da caramunha, babando sentenças apologéticas das rodilhas e das redomas;
dá-se um beijo a uma criança, viram-se os olhos escrutinadores dos apóstolos das Bem-aventuranças, os catequistas do saber-ser e do saber-fazer, os feirantes da moral vigente que rezam jaculatórias fervorosas, os ouvidos em alerta, não venha acoplada à meiguice uma mensagem pútrida, um convite subliminar. Não viva um delinquente disfarçado na capa do Super-Homem, na agilidade e nas teias sintéticas do Homem-Aranha…
Nem oito nem oitenta. Dar-lhes papel de relevo, quase estatuto de autoridade, é outra das mixórdias e mistifórios que Abril pariu, em semanas de embriaguez, ressacadas num Tejo sujo e marinheiro, a bordejar o Cais das Colunas, poiso de gaivotas e flamingos.
Por circunstância, sou presidente da Comissão Administrativa de uma IPSS, que acolhe um CATL. Pois afasto-me das crianças, evito cruzar-me com elas, quando brincam alegremente no corredor. Escolho as horas em que elas não estão. É isso, não quero confusão. Dou-lhes um sorriso tímido, passo e sigo, evito encontrões, respeitando sempre. Na mira, tenho sempre um ponto de fuga. Não brinco. Talvez devesse fazê-lo, mas tenho muito medo da censura social, o mais soberbo e o mais impreparado dos juízes da era tecnológica. E já ouvi uma criança, com um sorriso encantador, dizer: “agora os professores já não dão abracinhos”.
É pena que estejamos a plantar mais eucaliptos do que pessoas. Repulsa-me esta perfeição artificial, desenhada à medida da moda.