Esta longa campanha disse-nos algumas coisas. A primeira, e mais relevante, é a que confirma a pulverização e polarização da política portuguesa; a segunda, é a que obriga, quem quer assumir os mais altos cargos do Estado, a um percurso pessoal completamente transparente; a terceira, é a que nos impõe novos critérios de análise, uma vez que a ausência de uma vida pública e política sindicadas amplamente, pode levar-nos a surpresas e a disrupções no nosso sistema democrático.
O nosso país tem hoje um universo de votantes que se confirma no espaço da direita radical populista. Essa realidade, muito recente, merecia ser estudada pelos partidos que estruturaram o sistema partidário desde o 25 de Abril. Mas tem também um contexto que faz deste movimento um acelerador de preocupações – o seu líder consegue entender o português médio como nenhum outro.
O tempo de grandes desequilíbrios, que veio de 2020 a 2025, criou um caudilho. Um militar pode ser muitas coisas, mas só numa ditadura, ou na decorrência de uma revolução, é que é habitual a ascensão a Chefe de Estado de um fardado.
O militar candidato deste tempo não tem uma ideia de país, nem tem experiência política nacional ou internacional, não consegue estruturar a realidade institucional portuguesa, nem identificar os estrangulamentos da nossa economia, que não seja através de uns papers ardilosos. Maria de Lurdes Pintassilgo protagonizou uma candidatura presidencial populista bondosa; o militar de hoje, assumindo também uma candidatura populista, é um perigo para o país por ser tudo e o seu contrário à boleia de slogans impingidos. Nunca devemos esquecer que a máxima castrense “obedecer para cima, mandar para baixo” é visível de Marte na cabeça do candidato militar.
O tempo veloz em que vivemos obriga a responder também de forma rápida. Mas a ponderação não é dispensável. Ou seja, o marketing só é bom quando o produto é bom. O candidato do novo anarquismo económico, que se diz liberal, assentou a sua campanha na mensagem em 150 caracteres, só que o país não é o Twitter e toda a gente consegue entender que a soberba leva ao embate no muro. Quando se ataca outro na lama deve ter-se presente que a luta deixa de ter regras e que a avalanche de “bosta” poderá fazer ricochete.
Por último, os candidatos dos dois partidos centrais da nossa democracia. Tenho dito que Marques Mendes nunca deveria ter sido candidato e a realidade parece estar a dar-me razão. Apesar do comentário televisivo, que lhe forneceu muitos dos seus apoiantes de hoje, o mundo mudou muito, a forma de fazer política ainda mais, a exigência sobre o passado só não interessa aos tifosi. Avançando na campanha, conseguimos ver a perda de apoios e a naftalina que saiu do armário.
Mesmo assim, Mendes tem muita gente que o defende no espaço público. O grande argumento é o de que ele é a experiência em pessoa. É aqui que entra o outro candidato, o da democracia de Abril de 1974, aquele que tem três atributos essenciais – honestidade, transparência e sobriedade.
Mas, para além de não ter as desvantagens que Mendes tem e que são hoje bem conhecidas dos portugueses, será que Seguro é mesmo menos experiente pessoal e politicamente? Vamos ver…
Mendes foi autarca e Seguro também; foi deputado e Seguro também; foi secretário de Estado e Seguro também; foi ministro e Seguro também.
Mendes foi líder parlamentar e Seguro também; foi líder partidário e Seguro também; foi conselheiro de Estado e Seguro também.
Mendes fez acordos de regime e Seguro também; fez cortes com autarcas e Seguro também; tem livros de crónica política publicados e Seguro também.
Porém, há coisas que Seguro tem e Mendes nunca teve.
Seguro saiu mesmo da luta partidária, ninguém lhe ouviu mais uma palavra sobre o seu partido ou sobre a governação durante a última década. Edificou uma carreira académica prestigiada e reconhecida pelos pares, construiu uma sólida formação em política externa, coisa que é central no tempo que vivemos.
Durante meses, personalidades de vários campos insultaram Seguro. Nos últimos dias, muitas delas vieram a terreiro indicar que acabam por nele votar. Fizeram bem, mesmo que tenham criado um dano de credibilidade enorme e tenham exposto o PS a fraturas inaceitáveis. Uma delas, que não voltou e que apoia outro candidato, afirmou publicamente que, tendo Seguro perdido o partido, não estava apto para ganhar o país. Esqueceu essa pessoa que Jorge Sampaio, de quem era amigo e apoiante, também perdeu o partido, teve um resultado miserável nas eleições legislativas de 1991 e, no fim, foi Presidente da República.
É exatamente isso que espero que aconteça com Seguro. Nestes últimos meses, ele demonstrou coragem, moderação, equilíbrio, magnanimidade, inteligência, segurança e sageza, condições que são essenciais para o exercício da mais alta magistratura do Estado.
Ascenso Simões
Gestor e ex-Membro do XVII Governo Constitucional