Fixação com o Interior

por Alexandre Borges | 2018.01.18 - 18:03

Hoje o Jornal de Notícias dá conta que as portagens voltam a aumentar e, admire-se quem quiser, estas aumentam mais nos troços que servem as regiões mais interiores de Portugal, quando comparadas com as do litoral.

Podíamos, fôssemos pouco atentos ou mal intencionados, dizer que, mais uma vez, o Governo (este, aquele, etc.) está mais uma vez a ceder aos interesses das empresas privadas concessionárias que para atingirem um lucro de que não abdicam, e como há menos carros a circular, têm de aumentar o valor unitário da passagem na infraestrutura. Podíamos até dizer que a retórica frequentemente utilizada de que agora é que vamos discriminar positivamente as regiões do interior é uma treta, que as estruturas de missão para o interior não serviram para nada, que os discursos ouvidos depois dos dantescos incêndios eram vazios, que os investimentos públicos mais relevantes se centram sempre na capital do país ou na capital do Norte deixando aos restante país migalhas que não invertem (como poderiam?) o abandono populacional do interior e o deixam para pasto livre das chamas. Podíamos mas temos de ser mais optimistas e ver para além do óbvio.

Todos sabemos que as estradas tanto servem para trazer pessoas como para as levar e o que provavelmente se pretende com esta medida é tornar mais caro e, consequentemente, difícil, a saída de pessoas do interior e, assim, evitar o êxodo de populações, ajudando-as a fixarem-se nos locais que ainda habitam. Esta medida é também uma forma de seleccionar visitantes, excluindo os financeiramente menos abonados, que visitam o interior mas poucas divisas nos legam. Temos portanto de louvar e agradecer esta iniciativa que, pese embora incompreendida, serve para proteger o interior.

Outra medida que devemos (mas esta devemos mesmo) aplaudir é a intenção de criação de “cabras-sapadoras” para limpar as faixas de gestão de combustível de forma ecológica. Em tempos falou-se de “cabras-bombeiras” para o distrito da Guarda mas, infelizmente, estas nunca foram operacionalizadas. Agora, quem sabe se com recurso aos fundos comunitários, estas cabras foram objecto de formação profissional e foram reconvertidas de “bombeiras” para “sapadoras” e, caso avancem, irão traçar esses montes e ainda nos poderão deliciosos queijinhos.

 

 

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC. Virulentamente bombeiro. Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

Pub