Um novo estudo internacional revela que os conteúdos gerados por Inteligência Artificial (IA) podem influenciar significativamente a perceção de risco das pessoas, aumentando a ansiedade e a redução da intenção de viajar, com consequências diretas no comportamento turístico local.
Os investigadores alertam para a necessidade de um debate urgente sobre o papel da IA na formação da opinião pública e nas decisões individuais, particularmente em contextos de crise.
“A exposição a este tipo de media pode levar potenciais visitantes a sobrestimar os perigos associados ao destino, influenciando negativamente a decisão de viajar. O efeito é particularmente relevante em contextos de elevada incerteza, onde a informação circula rapidamente e nem sempre é devidamente verificada”, explica a docente da Faculdade de Letras da UC (FLUC) e investigadora do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) da UC, Cláudia Seabra.
A investigação destaca ainda que “a IA não só reproduz conteúdos existentes, como também pode amplificar tendências sensacionalistas, contribuindo para uma perceção distorcida da realidade. Este fenómeno levanta questões importantes sobre a responsabilidade das plataformas digitais e a necessidade de mecanismos de regulação e literacia mediática”, adianta Cláudia Seabra.
Os investigadores centraram a pesquisa no Líbano, um país, como contextualiza Cláudia Seabra, “cuja economia depende em parte do turismo e, como tal, os impactos podem ser significativos, e, por outro lado, um país muito próximo ao cenário de guerra”. “A redução do fluxo turístico afeta diretamente negócios locais, emprego e o desenvolvimento regional, agravando os desafios económicos já existentes”, afirma. Para conduzir este estudo, “foi implementada uma abordagem sequencial de métodos mistos, combinando a análise de conteúdo de quatro jornais online internacionais, árabes e não árabes, com uma análise quantitativa das respostas aos questionários recolhidos junto de 503 cidadãos libaneses”, partilha a docente da Universidade de Coimbra.
“O estudo evidencia diferenças relevantes entre os conteúdos produzidos por Inteligência Artificial e aqueles desenvolvidos pelos meios de comunicação tradicionais. Enquanto o jornalismo profissional tende a seguir critérios editoriais, verificação de fontes e contextualização geográfica e política, os conteúdos gerados por IA, frequentemente disseminados em redes sociais, podem replicar padrões sensacionalistas, descontextualizar acontecimentos ou até criar cenários plausíveis, mas não verificados”, elucida Cláudia Seabra.
A docente da Universidade de Coimbra sublinha que “esta distinção se torna crítica em contextos de conflito, onde a IA pode amplificar imagens e narrativas de violência de forma mais difusa e menos rigorosa, contribuindo para uma perceção de risco alargada a regiões não diretamente afetadas. Como resultado, os utilizadores expostos a este tipo de conteúdos tendem a formar perceções mais negativas e generalizadas, em contraste com uma leitura potencialmente mais equilibrada proporcionada pelos media tradicionais”.
Neste contexto, a análise dos dados recolhidos revela que “a desinformação gerada pela IA, como as imagens manipuladas, influenciou significativamente a perceção de risco dos utilizadores durante os conflitos, amplificando o medo e dissuadindo o turismo local no Líbano”, adianta Cláudia Seabra. “Os resultados revelam que a confiança nos conteúdos gerados pela IA, quando não acompanhada de consciencialização sobre este tipo de abordagem, está associada ao aumento da ansiedade e à redução da intenção de viajar”, avança.
“Os resultados qualitativos ajudam a contextualizar o ambiente mediático induzido pela IA e sublinham a importância de estratégias de comunicação mais transparentes e baseadas em dados reais, bem como o reforço da literacia digital dos utilizadores, de modo a mitigar os efeitos negativos da desinformação amplificada por IA”, remata a investigadora.
O artigo científico Can AI-induced media shape users’ risk perception? Exploring the fallout on local tourism in Lebanon amidst the Gaza conflict (Podem os conteúdos mediáticos gerados por IA moldar a perceção de risco dos utilizadores? Explorando as consequências para o turismo local no Líbano no contexto do conflito em Gaza, em português) encontra-se publicado no International Journal of Information Management, e pode ser consultado em https://doi.org/10.1016/j.ijinfomgt.2026.103058.