O ano de 2025 confirmou a normalização da crise na saúde em Portugal. O Barómetro “O Estado da Saúde em Portugal – 2025” revela um sistema de saúde em rutura prolongada, marcado pela degradação do SNS, pela saturação do setor privado e por uma perda generalizada de confiança dos utentes, num ano com 5.446 reclamações. O setor privado concentra a maioria das reclamações, mas o SNS acumula as mais graves.
O Barómetro “O Estado da Saúde em Portugal – 2025” traça um retrato crítico de um sistema de saúde em esforço permanente, marcado por falhas estruturais, instabilidade operacional e uma erosão profunda da confiança dos cidadãos.
A análise, desenvolvida pela Consumers Trust Labs, com base nas reclamações registadas no Portal da Queixa, contabilizou 5.446 reclamações ao longo de 2025, o que representa um aumento de 2,12% face a 2024.
Embora o crescimento global do número de reclamações seja moderado, o Barómetro conclui que 2025 ficou marcado pela normalização da crise. Os problemas deixaram de ser pontuais ou sazonais e passaram a integrar o funcionamento regular do sistema de saúde, tanto no setor público como no privado.
Setor privado concentra maioria das reclamações, SNS acumula as mais graves
O setor privado da saúde concentrou 71,94% das reclamações (3.918), refletindo uma quebra significativa das expectativas de utentes que recorrem a serviços pagos diretamente ou através de seguros e subsistemas. Já o setor público registou 28,06% das reclamações (1.528), mas com uma natureza mais crítica, associada a falhas no acesso a cuidados, dignidade humana e segurança clínica.
No SNS, o principal motivo de reclamação foi a falta de qualidade do atendimento clínico, responsável por 54,62% das queixas dirigidas ao setor público. O Barómetro identifica padrões recorrentes de desumanização, falhas de acompanhamento, escassez de profissionais e incapacidade de resposta em momentos críticos.
Urgências em colapso e verão de elevada tensão
O ano de 2025 ficou particularmente marcado pela crise das urgências, sobretudo na área da Obstetrícia. As reclamações relacionadas com urgências representaram 24,61% do total das queixas dirigidas ao setor público, com a Obstetrícia a concentrar 26,86% dessas ocorrências.
O terceiro trimestre do ano, e em especial o mês de agosto, revelou-se crítico: as reclamações no setor público aumentaram 72,09% face ao período homólogo, num contexto de encerramentos rotativos de urgências, greves prolongadas de médicos, enfermeiros e técnicos de emergência pré-hospitalar, e forte pressão sobre o INEM. Casos amplamente mediatizados de grávidas forçadas a percorrer vários hospitais, partos em ambulâncias e atrasos no socorro contribuíram para um sentimento generalizado de insegurança.
Setor privado sob pressão: urgências saturadas
Apesar de uma ligeira melhoria nos indicadores de resposta e gestão de reputação, o setor privado revelou sinais claros de saturação. A cobrança indevida tornou-se o principal motivo de reclamação, representando 24% do total, com relatos frequentes de faturas inesperadas, copagamentos não previstos e conflitos com seguradoras e subsistemas.
O conflito entre os grandes grupos de saúde privados e a ADSE marcou de forma significativa o ano de 2025. A introdução de novas tabelas, a ameaça de suspensão de convenções e a transferência de atos para o regime livre geraram confusão, encargos acrescidos para os beneficiários e um aumento expressivo das reclamações relacionadas com preços e reembolsos.
As urgências privadas, tradicionalmente percecionadas como mais rápidas e eficientes, também registaram degradação do serviço. Em períodos de colapso do SNS, a procura aumentou significativamente, levando a tempos de espera superiores a quatro horas e a um aumento acentuado das reclamações, com picos de até 200% em agosto.
Geografia do descontentamento
A análise geográfica revela forte concentração das reclamações nos grandes centros urbanos. Lisboa lidera tanto no setor público como no privado, seguida do Porto. O distrito de Setúbal destaca-se como um dos mais críticos, fortemente afetado pela instabilidade prolongada nas urgências obstétricas ao longo de todo o ano.
Utente exausto e sistema imprevisível
“O utente de 2025 é um cidadão exausto, confrontado com um sistema fragmentado, imprevisível e permanentemente em gestão de crise”, conclui o Barómetro.
O relatório sublinha que a dualidade entre setor público e privado falhou: quando o SNS entra em colapso, o setor privado não consegue absorver a procura sem degradar a sua própria proposta de valor.
O Barómetro alerta ainda que a crise é, sobretudo, de capital humano. Sem respostas estruturais ao nível das carreiras, condições de trabalho e organização dos cuidados, a abertura de novas unidades ou a introdução de tecnologia não será suficiente para inverter a tendência de insatisfação.
Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust analisa: “Os dados de 2025 demonstram um falhanço claro da governação da saúde. O SNS foi empurrado para uma rutura operacional que o Governo não conseguiu antecipar nem corrigir, e o setor privado acabou por absorver o colapso do público sem capacidade para responder. O resultado é um sistema desorganizado, imprevisível e um cidadão que perdeu confiança na capacidade do Estado em garantir cuidados de saúde básicos.
Para 2026, o principal desafio identificado é a reconstrução da confiança, através de maior previsibilidade no acesso aos cuidados, transparência e garantia de continuidade assistencial.”, defende.
Ficha técnica
Fonte de dados: Portal da Queixa
Período de análise: 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2025
Total de reclamações analisadas: 5.446
Metodologia: análise quantitativa e qualitativa das reclamações
Autoria: Consumers Trust Labs
Relatório completo: www.consumerstrust.co