Ainda a recuperar dos ciclones, Moçambique enfrenta agora a Covid-19

Passado um ano, Moçambique está ainda a tentar reerguer-se da destruição causada pelos furacões Idai e Kenneth. Mas como podem as comunidades concentrar-se em recuperar as suas casas e colheitas com a ameaça da propagação do novo coronavírus no horizonte?

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  • 22:38 | Sexta-feira, 24 de Abril de 2020
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Passado um ano, Moçambique está ainda a tentar reerguer-se da destruição causada pelos furacões Idai e Kenneth. Mas como podem as comunidades concentrar-se em recuperar as suas casas e colheitas com a ameaça da propagação do novo coronavírus no horizonte?

Falta de acesso a água e saneamento pode ajudar a propagar o novo coronavírus

O governo de Moçambique anunciou o primeiro caso de COVID-19 no dia 27 de março. Passados quatro dias, a 31 de março, foi decretado estado de emergência durante todo o mês de abril. As escolas e os espaços de diversão foram encerrados, a emissão de vistos para entrada no país suspensa, os eventos proibidos, bem como aglomerações superiores a 20 pessoas, e foram impostos novos limites na lotação de transportes.

Até ao momento foram detetados 41 casos de infeção pelo novo coronavírus, mas nenhum resultou em morte. Os números podem não parecer alarmantes, mas Jesús Palmero, representante da Ajuda em Ação em Moçambique, faz um alerta: “A expansão da COVID-19 pode significar um colapso do sistema sanitário devido às suas numerosas carências e dificultar o acesso a serviços básicos, num momento em que existem outras doenças a afetar gravemente o país, como o VIH-SIDA e a malária”.

Aliás, há que ter em conta que Moçambique ainda está a recuperar da destruição causada há um ano pelos furacões Idai e Kenneth, o que deixa as populações numa situação ainda mais vulnerável perante a pandemia do novo coronavírus. “Muitas famílias, por exemplo, ainda não conseguiram reconstruir as suas casas ou continuam sem acesso a necessidades básicas, como a água e saneamento” acrescenta Jesús Palmero.

África tem 5 camas de cuidados intensivos por um milhão de pessoas

Se Moçambique se deparasse com um possível aumento de doentes com COVID-19, o seu sistema de saúde não conseguiria dar uma resposta eficaz. Há falta de médicos, bem como de todo o tipo de profissionais de saúde (parteiras e enfermeiros, por exemplo), o que leva a que os pacientes tenham de esperar bastantes horas até conseguirem ser atendidos. Isto no caso dos cidadãos que conseguem ter acesso aos centros de saúde, já que 70% da população moçambicana vive isolada em zonas rurais.

O preço elevado de medicamentos básicos como analgésicos ou outros para tratar a diarreia ou a malária, que são distribuídos nos centros de saúde, também não facilita a situação. Por outro lado, os equipamentos também são escassos: de acordo com a Organização Mundial da Saúde, África tem 5 camas de cuidados intensivos por 1 milhão de pessoas para combater a pandemia. Devido à debilidade dos sistemas de saúde, sem apoio de comunidades externas, o Fórum Económico Mundial estima que a COVID-19 possa afetar 1,2 mil milhões de pessoas em África.

Existem ainda os chamados fatores culturais que potenciam o peso da medicina tradicional: a ministra da Saúde de Moçambique, Nazira Abdula, avança que 90% da população recorre a curandeiros e só vai a um hospital quando a sua situação é crítica, o que só agrava os altos índices de mortalidade, por doenças, no país.

COVID-19 ameaça população e economia moçambicana

O apelo do governo moçambicano à distância e isolamento sociais como forma de combate à disseminação do novo coronavírus torna-se mais complicado em Moçambique, devido à sua situação económica: o Índice de Pobreza Multidimensional dos Países em Desenvolvimento de 2019 da ONU mostra que 49,1% da população vive em pobreza multidimensional severa. E a verdade é que para esta população, ficar em casa pode significar comprometer a sua alimentação diária. Especialmente porque “as colheitas foram muito afetadas [e ainda estão a ser] pela passagem do Kenneth”, refere Sophia Buller coordenadora de emergência da Ajuda em Ação em Moçambique.

O encerramento de fronteiras põe em risco a alimentação da população moçambicana, uma vez que é da África do Sul que vêm muitos mantimentos. Além disso, “Moçambique depende fortemente de relações comerciais com outros países e sem esse apoio a economia do país pode ser gravemente afetada”, alerta o representante da Ajuda em Ação em Moçambique, Jesús Palmero.

A resposta da Ajuda em Ação do furacão Kenneth à COVID-19

Em Moçambique há mais de 15 anos, a Ajuda em Ação, organização internacional de apoio ao desenvolvimento em vários pontos do mundo, tem vindo a fomentar uma série de atividades no país, que vão desde a formação das comunidades para a adaptação das culturas às alterações climáticas, à educação e alimentação das crianças, ao empoderamento das mulheres e à luta contra a propagação de doenças mortíferas.

Assim, quando o Kenneth atingiu Moçambique, a 21 de abril de 2019, a ONG prestou prontamente apoio na reconstrução de casas, bem como na “distribuição de kits de higiene, dignity kits – com material essencial para as mulheres em fase reprodutiva – e um produto para desinfetar a água, devido ao surto de cólera”, refere Sophia Buller coordenadora de emergência da Ajuda em Ação em Moçambique.

Grande parte da intervenção da Ajuda em Ação concentra-se em Cabo Delgado, uma das províncias mais pobres do país. Em colaboração com a UNICEF e a OIM (Organização Internacional para as Migrações), a ONG está a apoiar a população afetada pelo ciclone Kenneth em projetos de ajuda humanitária no âmbito da promoção da higiene e para proporcionar abrigo a quem perdeu a sua casa. Além disso, a Ajuda em Ação também se tem dedicado a projetos para promover o acesso à água potável e ao saneamento nas comunidades rurais, que são fundamentais no combate a pandemias e outras ameaças à saúde.

O regresso das populações à normalidade ainda estava longe de ser alcançado quando a intervenção teve de se estender à atual pandemia da COVID-19. Algumas das atividades da ONG estão suspensas, mas com as devidas medidas de higiene e segurança, está a ser possível avançar com outras. Afinal, como relata Jesús, “nos próximos meses de trabalho, a preparação e prevenção frente à COVID-19 serão essenciais. Iniciámos atividades em colaboração como os nossos parceiros para apoiar os esforços das autoridades sanitárias”.

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