Viseenses não compram cobertura da Praça/Mercado 2 de Maio

Pode não se gostar de uma obra de arte, mas destruí-la é mais próprio de talibãs ou de terroristas ignorantes.

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  • 18:24 | Sábado, 20 de Fevereiro de 2021
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Uma carta-aberta/petição dirigida ao presidente da Câmara Municipal de Viseu, com 41 subscriptores (quase todos arquitectos, alguns de renome nacional e internacional, historiadores, gestores culturais e do património), que deu origem a uma petição pública já assinada por mais de 1.750 pessoas, vem “exigir a revogação da decisão de executar o projecto de alteração/cobertura da Praça/Mercado 2 de Maio” por constituir um “atentado patrimonial e urbanístico”; desrespeitar a autoria dos arquitectos Álvaro Siza e António Madureira, tendo o primeiro enviado, a pedido do anterior autarca, Fernando Ruas, uma proposta de alteração ao projecto original que não chegou a ser executada, exigindo-se também a sua divulgação e discussão pública; não admitir que se gaste 4,3 milhões do erário público num projecto atentatório do património da cidade, que ainda por cima tinha ficado em 2º lugar no concurso cujo programa pecou por ser “impositivo e determinar, a priori, a solução a adoptar”.

Espero que este movimento cívico faça suspender este atentado contra o património de Viseu, já ferido com o corte de uma das magnólias para ali instalar um carrocel parisiense que merecia ficar mais visível no Rossio, de onde foi trasladado, do que num canto do Mercado, meio encoberto pela copa das árvores.

Em Dezembro de 2015, escrevi um artigo a denunciar o debate público viciado sobre a cobertura do Mercado 2 de Maio, desde logo por ser uma aberração uma cobertura sobre uma praça cheia de magnólias que, se passarem a ser bem cuidadas e regadas, poderão atingir os 12 metros de altura (daí o projecto agora seleccionado ter elevado a cobertura a 14 metros, fora de escala).


Até há quem já tenha defendido a cobertura da Rua Direita, à semelhança do que já se propôs em ruas do centro de Coimbra, para ajudar o pequeno comércio a resistir à concorrência das grandes superfícies e centros comerciais.

No Centro Comercial a Céu Aberto de Cáceres vi ruas cobertas com toldos, mas estes são amovíveis e, além do mais, nós não temos o Sol da Andaluzia. Mas daí a cobrir árvores de forma definitiva não me parece saudável, sobretudo para as árvores. No último debate, na sede da Associação dos Comerciantes, houve arquitectos que levantaram dúvidas sobre se as magnólias resistiriam à cobertura. Há quem garanta que não! Com jeitinho até podia ser que Siza Vieira aceitasse projectar uma cobertura apenas para o piso superior, já que até foi concebido como espaço onde se pode fazer espectáculos, com um pequeno palco.

Almeida Henriques afirmou na Assembleia Municipal que não havia ninguém que gostasse daquele espaço. Ora, como lhe disse na ocasião, conheço muita gente que gosta desta obra de Siza Vieira e eu próprio já lho tinha dito publicamente num debate sobre a revitalização do centro histórico.

Aquela praça faz-me lembrar o Pátio das Laranjeiras da Mesquita de Córdoba. Pessoalmente, gosto de passar na Rua Formosa e olhar para a Praça ou de a atravessar para atalhar para a Rua do Comércio. Não acho necessário ter ali diariamente actividades, da mesma forma que o Rossio não é mais do que uma praça por onde se passa ou onde nos sentamos a ouvir os pássaros ou a fruir da esplanada à sombra das tílias. Cobrir o Rossio não passa pela cabeça de ninguém. Sempre defendi que o pecado original do Mercado 2 de Maio é o muro e o gradeamento que o isola das ruas adjacentes, ao ponto de alguns turistas perguntarem aos comerciantes se podem entrar ou se se trata de um condomínio privado. Mas parece que o projecto inicial de Siza Vieira não contemplava o gradeamento (cujas barras, de tão finas, até lhe dão uma certa tansparência) que terá sido uma ideia de Fernando Ruas.

Falta funcionalidade ao Mercado 2 de Maio? Basta ter deixado de ser mercado. Mas essa culpa tem de ser assacada ao dono da obra que não tinha nenhuma ideia para o espaço.

Fernando Ruas nem sequer soube ouvir os comerciantes que atempadamente criticaram os espaços exíguos das lojas, que, como se veio a verificar, se viram obrigados a sacrificar a porta virada para a Praça para poderem colocar prateleiras e expositores para as mercadorias, ficando apenas com porta aberta para a Rua do Comércio. E isso também não ajudou a dinamizar a Praça.

Siza Vieira, na ausência de indicações precisas do dono da obra, fez o que eu costumo chamar uma “escultura arquitectónica”. A Arquitectura é uma disciplina artística. Álvaro Siza é um arquitecto galardoado a nível mundial (Prémio Pritzker, o equivalente, na arquitectura, ao Prémio Nobel).

Pode não se gostar de uma obra de arte, mas destruí-la é mais próprio de talibãs ou de terroristas ignorantes.

Não há vacas sagradas, diz Almeida Henriques. Mas também não há necessidade de matar a vaca, digo eu. E o que se está a projectar para a Praça é destruir completamente o que lá está. E se o resultado provocar arrependimento mais tarde, como aconteceu com a destruição da antiga Praça? Agora é fácil imaginar que bastaria ter deixado ficar os telheiros, substituindo as bancadas de cimento por bancos de pedra que servissem simultaneamente de assento e de bancada para os vendedores e artesãos da feira de velharias ou do Mercado Indo Eu”.

A segunda limitação deste concurso foi o parque de estacionamento subterrâneo que a Câmara colocou no caderno de encargos. Houve arquitectos que foram eliminados do concurso porque se recusaram a desenhar o estacionamento, não só pelo custo desmesurado devido ao solo granítico, como pela inutilidade, já que há outros parques de estacionamento, relativamente perto, subocupados (Santa Cristina, Av. Capitão Silva Pereira, Centro Comercial Académico).

A Câmara acabou por desistir do estacionamento, antes do fim do debate público, mas os projectos eliminados por esse motivo não foram repescados. No mínimo, a Câmara devia ter exposto esses projectos à apreciação dos viseenses.

Almeida Henriques quer um espaço coberto para fazer feiras e festas também durante o Inverno. Tem o pavilhão multiusos. Não há necessidade de destruir a Praça, que é o que aconteceria com os projectos classificados pelo júri do concurso. O primeiro tinha alguns méritos arquitectónicos, a começar pela óbvia remoção do gradeamento, ou a referência à estrutura geométrica das árvores, mas destrói de forma irreversível a obra de Siza e ao levantar uma rampa a partir do meio do primeiro piso coloca muitas dúvidas, a começar pela sustentação das esplanadas. Além de que não resolvia totalmente o problema da chuva e do frio. Quanto ao 3º projecto classificado, é tão pesado que esmagaria o pré-existente. O 2º classificado, agora prestes a ser executado por decisão de Almeida Henriques, também não tem rasgo arquitectónico que o recomende, embora algumas soluções de engenharia sejam interessantes, como os paineis fotovoltaicos, mas a estrutura de aço e vidro criaria efeitos de estufa e outros perniciosos para as árvores e para as pessoas.

Este concurso poderá ser um bom caso de estudo para estudantes de Arquitectura, como um mau exemplo de intervenção no espaço público.

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