A violência tornou-se uma presença constante no nosso quotidiano. Entra-nos pela casa dentro através das notícias, instala-se no discurso público e banaliza-se no espaço mediático. Mas há uma forma de violência que continua, silenciosamente, fora do radar: a que atinge as pessoas idosas.
Em Portugal, conhecemos recentemente os dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI 2025). Os números são claros: os crimes de ódio aumentaram de forma expressiva na última década; a violência doméstica mantém-se como uma das tipologias mais participadas; os crimes de violação atingem valores preocupantes. O RASI é, sem dúvida, um instrumento essencial para compreender o país que temos. Mas revela também uma fragilidade estrutural: a incapacidade de tornar visível a violência exercida sobre grupos particularmente vulneráveis, como as pessoas idosas. A violência contra pessoas idosas existe, é grave, mas permanece, em grande medida, diluída em categorias gerais, sem leitura autónoma, sem indicadores específicos, sem prioridade política clara. Um vazio estatístico, político e social. Não estamos perante um problema novo. Estamos perante um problema que continua a ser ignorado. Os dados disponíveis fora do RASI ajudam a perceber a dimensão do problema. Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), entre janeiro e agosto de 2025 foram apoiadas 1.557 pessoas idosas vítimas de crime e violência, correspondendo a 2.861 crimes registados.
Há uma dimensão, difícil de medir, que não pode continuar a ser ignorada: o abandono. O abandono das pessoas idosas ocorre em silêncio nos hospitais, nas casas, nas instituições. Surge quando a doença chega e a dependência aumenta.
Como alertou, recentemente, a enfermeira Carmen Garcia, “é demasiado fácil desprezar e abandonar os velhos”. É precisamente essa facilidade que deve inquietar-nos. Casos de pessoas idosas deixadas em unidades de saúde, sem retaguarda familiar, sem resposta social adequada, são sinais de uma falha coletiva, ética, social e institucional. Neste contexto, a Associação Stop Idadismo tem vindo a desenvolver um trabalho consistente para trazer o tema da discriminação em função da idade e da violência sobre pessoas idosas para o espaço público, desafiando a sociedade e os decisores a romper com a invisibilidade que ainda marca esta realidade. Enquanto Presidente da Associação Stop Idadismo, afirmo com clareza: enquanto a violência contra as pessoas idosas não for medida de forma autónoma, continuará fora das prioridades políticas. O que não se mede, não conta, o que não conta, não muda. A invisibilidade deste fenómeno tem consequências diretas: impede o diagnóstico rigoroso, fragiliza a resposta pública e perpetua a impunidade. Não há política pública eficaz sem dados. E não há dados quando uma realidade permanece invisível por ausência de prioridade. Por isso, é urgente dar um passo decisivo.
Portugal é hoje um país envelhecido, o segundo da Europa, depois de Itália. Mais de 2,5 milhões de pessoas têm 65 ou mais anos, representando cerca de 24% da população. Ignorar a violência que atinge os mais velhos não é apenas uma falha ética e técnica. É uma escolha política. Uma sociedade mede-se, também, pela forma como cuida dos seus membros mais vulneráveis. Tornar visível esta realidade é o primeiro passo. Ignorar é uma escolha. Agir é uma obrigação.