Há mudanças que acontecem de forma tão gradual que quase deixam de ser percebidas. No desporto de formação, uma delas merece particular atenção: a crescente tendência para reproduzir, nas crianças e nos jovens, práticas próprias do desporto profissional.
A questão não está na existência destas ferramentas. Empresários, comunicação e redes sociais fazem parte da realidade do desporto moderno e, quando utilizados no momento adequado, podem desempenhar um papel importante.
A verdadeira questão é outra: estaremos a antecipar etapas fundamentais do desenvolvimento de uma criança?
Na formação, o objetivo nunca deveria ser reproduzir o modelo do alto rendimento. A missão é diferente. Enquanto o desporto profissional vive de resultados, contratos e visibilidade, o desporto de formação existe para desenvolver pessoas, cultivar competências, transmitir valores e proporcionar experiências que contribuam para o crescimento integral de cada jovem.
Contudo, observa-se uma aproximação cada vez maior entre estes dois mundos.
Quando uma criança sente que cada jogo pode influenciar o seu futuro, quando cada publicação nas redes sociais procura reforçar uma imagem de sucesso ou quando a mudança de clube é comunicada como uma transferência profissional, o risco é que o foco deixe de estar na aprendizagem e passe a centrar-se na projeção de uma carreira.
É precisamente por isso que nenhuma estratégia de promoção consegue substituir aquilo que só o tempo oferece: maturidade. Talvez devêssemos recordar uma ideia simples: antes de existir um atleta, existe uma criança. Antes de existir uma carreira, existe uma pessoa em construção.
É legítimo que as famílias sonhem. O sonho faz parte do desporto e da educação. O problema surge quando a velocidade do sonho ultrapassa o ritmo natural do crescimento.
Nem todos os jovens atletas chegarão ao alto rendimento. Aliás, a esmagadora maioria não o fará. Mas todos levarão consigo aquilo que aprenderam durante os anos de formação. É por isso que o maior legado do desporto não se mede pelo número de contratos assinados, mas pela qualidade dos adultos que ajudou a formar.
Talvez esteja na altura de perguntarmos se queremos apenas preparar futuros profissionais ou se continuamos verdadeiramente comprometidos com a missão de educar através do desporto.
Porque, no fim, o maior sucesso da formação não é produzir atletas de elite. É formar pessoas que, independentemente do caminho que venham a seguir, possam dizer que o desporto contribuiu para serem melhores seres humanos.
O alto rendimento inspira. A formação educa. Quando confundimos estas duas missões, corremos o risco de perder aquilo que o desporto tem de mais valioso: a capacidade de formar pessoas antes de formar atletas.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto