Povo que lavas no rio

O Moinho Velho, pelas suas características mais bucólicas e românticas era o espaço de eleição das meninas comprometidas que muitas vezes eram agradavelmente surpreendidas com a visita do seu amado. 

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  • 11:20 | Segunda-feira, 23 de Março de 2026
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No tempo em que ninguém, mas mesmo ninguém tinha água canalizada, as mulheres de cada família tinham que, com regularidade, ir ao rio lavar a roupa.

Normalmente quando existia na família mais do que uma filha esta tarefa era destinada à mais velha. Poucos eram os privilégios da filha mais velha, mas este foi um que agradavelmente me coube!

Ir par o rio era um dia de muito trabalho, mas também de muita diversão e alegria.
Saíamos de casa com a bacia da roupa à cabeça e a escolha do local, tinha a ver ou com o tipo de roupa que íamos lavar ou então com o grupo de amigas com quem antecipadamente combinávamos para onde íamos nessa semana. Quando tínhamos cobertores e mantas era certo e sabido que o destino era o Penedo da Raposa, onde podiam ser bem ensaboados e bem lavados nas fragas que ladeavam o rio. Também nessa zona havia boas paredes para depois se secarem. Para corar a roupa branca não havia melhor que a Ponte com as suas lameirinhas verdejantes, que tinham um poder superior à lixívia e não destruíam os tecidos.

Depois havia os pequenos truques para tirar as nódoas mais resistentes como as de vinho numa toalha. Um bocadinho de bosta de vaca fazia milagres!


O Porto Carro era o destino escolhido pelas boas paredes onde a roupa que se punha a secar ficava tão esticada que muitas vezes nem sequer precisava de ser passada a ferro. A Pontinha era mais da preferência das mulheres casadas ou daquelas que tinham os campos perto, assim, matavam dois coelhos com uma só cajadada, lavavam a roupa e nos intervalos abriam a água para o lameiro.

O Moinho Velho, pelas suas características mais bucólicas e românticas era o espaço de eleição das meninas comprometidas que muitas vezes eram agradavelmente surpreendidas com a visita do seu amado.

Lavar a roupa era um ritual muito interessante, primeiro lavava-se a roupa branca e punha-se a corar, depois a escura que ia directamente para as paredes para secar. Seguidamente a roupa branca que já estava ao nosso agrado era enxaguada e torcida, se porventura, as nódoas e o surro encardido teimavam em não sair, levava mais uma ensaboadela e voltava para a lameira. Entretanto, fazia-se uma pausa, comia-se e partilhava-se a merenda que levávamos de casa.

No rio, partilhava-se a água, o espaço, a merenda, os segredos e os sentimentos. No rio aprendia -se a ser mais tolerante, a aceitar as diferenças e a respeitar o espaço público. 
No rio aprendia-se a ser GENTE!

Ondina Freixo

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Publicado em Opinião