No tempo em que ninguém, mas mesmo ninguém tinha água canalizada, as mulheres de cada família tinham que, com regularidade, ir ao rio lavar a roupa.
Normalmente quando existia na família mais do que uma filha esta tarefa era destinada à mais velha. Poucos eram os privilégios da filha mais velha, mas este foi um que agradavelmente me coube!
Depois havia os pequenos truques para tirar as nódoas mais resistentes como as de vinho numa toalha. Um bocadinho de bosta de vaca fazia milagres!
O Porto Carro era o destino escolhido pelas boas paredes onde a roupa que se punha a secar ficava tão esticada que muitas vezes nem sequer precisava de ser passada a ferro. A Pontinha era mais da preferência das mulheres casadas ou daquelas que tinham os campos perto, assim, matavam dois coelhos com uma só cajadada, lavavam a roupa e nos intervalos abriam a água para o lameiro.
O Moinho Velho, pelas suas características mais bucólicas e românticas era o espaço de eleição das meninas comprometidas que muitas vezes eram agradavelmente surpreendidas com a visita do seu amado.
Lavar a roupa era um ritual muito interessante, primeiro lavava-se a roupa branca e punha-se a corar, depois a escura que ia directamente para as paredes para secar. Seguidamente a roupa branca que já estava ao nosso agrado era enxaguada e torcida, se porventura, as nódoas e o surro encardido teimavam em não sair, levava mais uma ensaboadela e voltava para a lameira. Entretanto, fazia-se uma pausa, comia-se e partilhava-se a merenda que levávamos de casa.
No rio, partilhava-se a água, o espaço, a merenda, os segredos e os sentimentos. No rio aprendia -se a ser mais tolerante, a aceitar as diferenças e a respeitar o espaço público.
No rio aprendia-se a ser GENTE!
Ondina Freixo