A segunda volta das eleições presidenciais confirmou que a maioria ampla do povo português recusa o regresso ao passado salazarista, de miséria, fome e emigração em massa (muito mais expressiva do que acontece actualmente graças à democratização do ensino secundário e superior que se seguiu ao 25 de Abril de 1974), defendida pelo candidato populista, mentiroso compulsivo e saudosista do colonialismo, que acha que o país precisa de “três salazares”.
Ventura alardeou a vitória no círculo da emigração, mas na verdade Seguro venceu em 23 países, incluindo Alemanha (66,5%), Bélgica (73,68%), Espanha (79,82%), Países Baixos (83,83%) e Reino Unido (70,79%).
Na Europa, Seguro venceu com 50,78%, em África com 54,73%, e na América com 59,7%. Ventura teve mais votos apenas em nove países. Mas é preciso notar-se que dos 1.777.019 eleitores portugueses no estrangeiro, apenas 42.788 (2,4%) votaram em Ventura, ou seja, 97,6% dos inscritos não votaram Ventura (contas do historiador Victor Pereira, no Público de 16.02.2026).
Seguro será posto à prova com o pacote laboral do governo. Garantiu que o não promulgaria se o governo o deixasse na mesma, mas como o governo quer modificar (para pior) cem artigos do Código do Trabalho, não basta recuar em dois ou três para dizer que não alterou nada. Mau sinal é a ministra do Trabalho ter convocado uma reunião com as confederações patronais para discutir o pacote laboral, sem ter convocado a CGTP e apesar de a UGT ter informado não ter disponibilidade nessa data. Tiveram de ser as confederações patronais a pedir o adiamento à última hora.
Significativamente, Seguro venceu com mais de 70% nas secções de voto que adiaram as eleições por causa dos estragos provocados pelas tempestades. As tristes figuras do candidato da extrema-direita a carregar, engravatado, garrafas de água, sob uma chuva manipulada digitalmente para parecer mais intensa, não enganaram as populações vitimadas.
O governo decidiu não prolongar as isenções de portagens nos concelhos atingidos e foram os autarcas do distrito de Leiria (CIM) a se disponibilizar a pagar o custo estimado em 3,5 milhões de euros. O ministro das Finanças recusa usar o excedente orçamental para ajudar as vítimas das tempestades. E o prometido “lay off” a 100%, afinal será apenas de ¾ do salário pago pela Segurança Social (PCP, Livre e BE já requereram a apreciação parlamentar do diploma).
GIRABOLHOS, A BARRAGEM DE “FAZ DE CONTA”
A ministra do Ambiente e Energia anunciou o lançamento do concurso, até final de Março, para a construção da barragem de Girabolhos, em Seia, (abandonado em 2016 pela Endesa, por alegada falta de rentabilidade económica) como se fosse uma medida para a gestão das cheias do rio Mondego, o que já foi contestado por vários especialistas, como Rui Cortes, e pela Associação Zero que dizem que se trata de uma falsa solução, um mero aproveitamento político, uma vez que esta barragem “não é relevante para o controlo das cheias” , nem a sua concessão previa isso, mas tão só a produção energética. Para a Zero, “insistir na barragem de Girabolhos representa um erro estratégico e desvia recursos e atenção de soluções verdadeiramente eficazes”, baseadas na natureza, como a retenção, recuperação do coberto florestal com espécies autóctones e o restauro ecológico dos cursos de água”.
Também o MUNDA – Movimento para a Defesa do Rio Mondego (que eu integro), no passado dia 18, publicou o comunicado “POR UMA GESTÃO GLOBAL DA BACIA DO MONDEGO”, onde afirma que “As recentes inundações puseram à vista de todos as fragilidades da gestão do território na bacia do maior rio inteiramente português, com enorme impacto nos recursos económicos e nas vidas de várias comunidades intermunicipais. A bacia hidrográfica do Mondego é um território marcado por gravíssima erosão dos solos nas zonas antes florestadas, hoje incapacitados para a retenção de água, por centenas de outros cursos de água carentes de limpeza e ordenamento para fins úteis, por errado emanilhamento em zonas urbanas impermeabilizadas e por graves problemas de manutenção da obra que artificializou o seu leito final entre Coimbra e a foz.”
“Neste contexto, o problema das cheias do Mondego não é de modo algum redutível à chamada Barragem de Girabolhos, antes apela a uma abordagem, planificação e investimento muito mais abrangentes e programadas”. “(…) contentarmo-nos com o anúncio da construção de mais uma barragem equivaleria a desperdiçar uma preciosa oportunidade para tratar o problema de uma forma global.”
A concluir, o MUNDA apela “à comunidade científica, às associações ambientais e cívicas em geral para que tomem nas suas mãos a organização de um Congresso sobre o Mondego, a realizar ainda no ano 2026”.
A Ciência há muito que alerta para os riscos que Portugal enfrenta face às alterações climáticas, com fenómenos extremos cada vez mais frequentes. Esta é a única “guerra” que devemos travar, em vez de investir, acriticamente, no rearmamento em curso na Europa.