Portugal a meter água e “destelhado” pelas alterações climáticas

... o MUNDA apela “à comunidade científica, às associações ambientais e cívicas em geral para que tomem nas suas mãos a organização de um Congresso sobre o Mondego, a realizar ainda no ano 2026”.

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  • 12:35 | Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2026
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A segunda volta das eleições presidenciais confirmou que a maioria ampla do povo português recusa o regresso ao passado salazarista, de miséria, fome e emigração em massa (muito mais expressiva do que acontece actualmente graças à democratização do ensino secundário e superior que se seguiu ao 25 de Abril de 1974), defendida pelo candidato populista, mentiroso compulsivo e saudosista do colonialismo, que acha que o país precisa de “três salazares”.

Ventura alardeou a vitória no círculo da emigração, mas na verdade Seguro venceu em 23 países, incluindo Alemanha (66,5%), Bélgica (73,68%), Espanha (79,82%), Países Baixos (83,83%) e Reino Unido (70,79%).

Na Europa, Seguro venceu com 50,78%,  em África com 54,73%, e na América com 59,7%.  Ventura teve mais votos apenas em nove países. Mas é preciso notar-se que dos 1.777.019 eleitores portugueses no estrangeiro, apenas 42.788 (2,4%) votaram em Ventura, ou seja, 97,6% dos inscritos não votaram Ventura (contas do historiador Victor Pereira, no Público de 16.02.2026).


Ventura ganhou onde a extrema-direita está mais enraizada e onde é maior o peso da emigração menos qualificada, mais susceptível de se deixar enganar pelas falsas notícias nas redes sociais e pela manipulação populista. Marine Le Pen mobilizou em França o voto para Ventura, segundo o sociólogo João Teixeira Lopes. É certo que não devemos menosprezar os 1.700.000 votos de Ventura, mas também é verdade que os meios de comunicação social mais sensacionalistas lhe dão uma ajuda não despicienda. Até o “Diário de Viseu”, no dia seguinte à eleição da segunda volta, face à vitória retumbante de Seguro, não encontrou melhor manchete do que esta: “Nunca se votou tanto em André Ventura”. 

Seguro será posto à prova com o pacote laboral do governo. Garantiu que o não promulgaria se o governo o deixasse na mesma, mas como o governo quer modificar (para pior) cem artigos do Código do Trabalho, não basta recuar em dois ou três para dizer que não  alterou nada. Mau sinal é a ministra do Trabalho ter convocado uma reunião com as confederações patronais para discutir o pacote laboral, sem ter convocado a CGTP e apesar de a UGT ter informado não ter disponibilidade nessa data. Tiveram de ser as confederações patronais a pedir o adiamento à última hora.

Significativamente, Seguro venceu com mais de 70% nas secções de voto que adiaram as eleições por causa dos estragos provocados pelas tempestades. As tristes figuras do candidato da extrema-direita a carregar, engravatado, garrafas de água, sob uma chuva manipulada digitalmente para parecer mais intensa, não enganaram as populações vitimadas.

A tragédia provocada pelo comboio de tempestades que atingiu Portugal encontrou pela frente um governo desarmado, com uma ministra a cair à água em “contexto de invisibilidade”; um ministro a gravar vídeos para dar “visibilidade” ao gabinete; e um primeiro-ministro a falar com o governo espanhol sobre a regularização do rio Mondego, que, como todos sabem, nasce na Serra da Estrela.

O governo decidiu não prolongar as isenções de portagens nos concelhos atingidos e foram os autarcas do distrito de Leiria (CIM) a se disponibilizar a pagar o custo estimado em 3,5 milhões de euros. O ministro das Finanças recusa usar o excedente orçamental para ajudar as vítimas das tempestades. E o prometido “lay off” a 100%, afinal será apenas de ¾ do salário pago pela Segurança Social (PCP, Livre e BE já requereram a apreciação parlamentar do diploma).

 

GIRABOLHOS, A BARRAGEM DE “FAZ DE CONTA”

A ministra do Ambiente e Energia  anunciou o lançamento do concurso, até final de Março, para a construção da barragem de Girabolhos, em Seia, (abandonado em 2016 pela Endesa, por alegada falta de rentabilidade económica) como se fosse uma medida para a gestão das cheias do rio Mondego, o que já foi contestado por vários especialistas, como Rui Cortes, e pela Associação Zero que dizem que se trata de uma falsa solução,  um mero aproveitamento político, uma vez que esta barragem “não é relevante para o controlo das cheias” , nem a sua concessão previa isso, mas tão só a produção energética. Para a Zero, “insistir na barragem de Girabolhos  representa um erro estratégico e desvia recursos e atenção de soluções verdadeiramente eficazes”, baseadas na natureza, como a retenção, recuperação do coberto florestal com espécies autóctones e o restauro ecológico  dos cursos de água”.

Também o MUNDA – Movimento para a Defesa do Rio Mondego (que eu integro), no passado dia 18, publicou o comunicado “POR UMA GESTÃO GLOBAL DA BACIA DO MONDEGO”, onde afirma que “As recentes inundações puseram à vista de todos as fragilidades da gestão do território na bacia do maior rio inteiramente português, com enorme impacto nos recursos económicos e nas vidas de várias comunidades intermunicipais. A bacia hidrográfica do Mondego é um território marcado por gravíssima erosão dos solos nas zonas antes florestadas, hoje incapacitados para a retenção de água, por centenas de outros cursos de água carentes de limpeza e ordenamento para fins úteis, por errado emanilhamento em zonas urbanas impermeabilizadas e por graves problemas de manutenção da obra que artificializou o seu leito final entre Coimbra e a foz.”

Neste contexto, o problema das cheias do Mondego não é de modo algum redutível à chamada Barragem de Girabolhos, antes apela a uma abordagem, planificação e investimento muito mais abrangentes e programadas”. “(…) contentarmo-nos com o anúncio da construção de mais uma barragem equivaleria a desperdiçar uma preciosa oportunidade para tratar o problema de uma forma global.

 

A concluir, o MUNDA apela “à comunidade científica, às associações ambientais e cívicas em geral para que tomem nas suas mãos a organização de um Congresso sobre o Mondego, a realizar ainda no ano 2026”.

 

A Ciência há muito que alerta para os riscos que Portugal enfrenta face às alterações climáticas, com fenómenos extremos cada vez mais frequentes.  Esta é a única “guerra” que devemos travar, em vez de investir, acriticamente, no rearmamento em curso na Europa.

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Publicado em Opinião