Pobres, sós, invisíveis, os velhos…

Na reportagem ficou clara a ideia de que são muitos aqueles que ao chegarem à idade da reforma são obrigados, como complemento desta a, por exemplo, distribuir jornais, recolher garrafas ou repor produtos nas prateleiras dos supermercados. As imagens captadas permitiram observar muitas pessoas idosas com andarilhos ou em cadeiras de rodas na fila para receberem bens alimentares.

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  • 10:28 | Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2020
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Neste final de ano atípico quero destacar dois trabalhos jornalísticos que têm as pessoas mais velhas como foco da sua atenção, um nacional e outro internacional.

Começo por destacar o Ensaio “Porque escolhemos não ver os velhos”, realizado por Adriano Miranda (fotografia) e Dulce Maria Cardoso (texto) para o jornal Público de 20 de dezembro de 2020. Dulce Cardoso descreve o seu quotidiano, após a mudança para casa da mãe que lhe disse, ao telefone, ter medo do vírus:

Não é só o vírus, sinto-me mal, não quero mais viver sozinha, o teu pai morreu há tanto tempo, estou cansada.


Esta frase dá força a outra, escrita por Henrique Raposo no Expresso:

A solidão mata logo algumas pessoas e vai matando outras como uma píton a estrangular a presa. Se o vírus é uma ameaça física, o distanciamento é uma ameaça mental. Qual é a pior?

Dulce Maria Cardoso narra, com enorme sensibilidade e realismo, a sua experiência como cuidadora informal, numa narrativa que ganha mais força com as fotografias do Fernando (70 anos), da Maria Marques (81 anos), da Carminda Barbosa (81 anos), do Fernando Rita (87 anos), da Maria Martins (96 anos), da Rosete Sabino (74 anos), da Joaquina Roberto (90 anos), do António Gomes (71 anos), da Adelaide Nunes (81 anos), da Antónia Vicente (91 anos), da Rita Mário (94 anos), do Vitor Freire (74 anos), da Alice Carvalho (89 anos) …

Por estes dias, ao fazer zapping pelos canais da televisão alemã, com o apoio na tradução da minha sobrinha, fiquei a saber que também na “locomotiva” da Europa o empobrecimento das pessoas idosas avança mais rapidamente do que o da restante população. A população maior de 65 anos em risco de pobreza, de acordo com o instituto de estatística alemão, cresceu de 4,7% para 15,7% nos últimos 15 anos. A federação que reúne mais de 940 bancos alimentares do país – Tafel Deutchland (https://www.tafel.de/) – confirmou à jornalista que a tendência é clara: “A proporção de gente idosa que entre os nossos utentes não para de crescer. Os números quase duplicaram desde 2007.”

Na reportagem ficou clara a ideia de que são muitos aqueles que ao chegarem à idade da reforma são obrigados, como complemento desta a, por exemplo, distribuir jornais, recolher garrafas ou repor produtos nas prateleiras dos supermercados. As imagens captadas permitiram observar muitas pessoas idosas com andarilhos ou em cadeiras de rodas na fila para receberem bens alimentares.

O aumento da pobreza obedece, em parte aos cálculos fruto da reforma das pensões, mas também estará relacionado com o crescimento do desemprego até 2005. Muitos reformados que passaram alguns anos desempregados são penalizados nos valores que lhes são atribuídos aquando da idade da reforma. Também o incremento de uma política de salários baixos influencia o desmoronar do mito do reformado alemão com uma qualidade de vida invejável.

O progressivo envelhecimento da população alemã faz prever um agravamento da situação de pobreza entre os mais velhos, nos próximos anos. Para responder a este problema, a partir de 01 de janeiro entrará em vigor um subsídio mínimo para reformados, uma espécie de pensão básica, aprovada durante o passado verão.

A pandemia tem vindo a agravar na Alemanha e no mundo, Portugal não foge à regra, a solidão e a pobreza que vitimam muitas pessoas idosas.

Pergunto-me porque somos tão mais capazes de cuidar dos corpos do que das cabeças. Das cabeças e da felicidade. Não conseguimos tratar bem o que não vemos. Ou o que escolhemos não ver. Os velhos foram arredados dos palcos em que a vida moderna acontece. Como gatos vadios que deixamos de ver na rua porque adoecem discreta e secretamente nas traseiras dos prédios. Ninguém quer saber deles.” (Dulce Maria Cardoso)

 

 

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