Os olhos da fome

Entre as pessoas mais velhas, o risco é agravado por pensões reduzidas, isolamento, doença, perda de autonomia, inadequação das habitações e dificuldade em encontrar alternativas no mercado de arrendamento.

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  • 10:58 | Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026
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Todos nós já sentimos fome: a sensação física provocada pela necessidade de alimento, geralmente temporária e satisfeita com a refeição seguinte. Muito diferente é ver a fome nos olhos de alguém, resultado da falta de alimentos por insuficiência económica. Recordo as palavras de uma amiga que trabalhou em Moçambique: “Agora sei o que é a fome. Ver aqueles olhos das crianças na rua é algo que não se esquece.” Outro nível, ainda, será ter os olhos da fome: olhos que revelam pobreza, privação, abandono e invisibilidade social.

Estudos, diagnósticos, debates, estratégias e planos são indispensáveis, mas não bastam para responder a problemas sociais complexos. É necessário aproximarmo-nos das pessoas, ouvi-las e conhecer a realidade concreta em que vivem. A conjugação do conhecimento com a experiência no terreno poderá ajudar a definir políticas públicas capazes de responder às necessidades reais de cada pessoa.

Londres é a melhor das cidades e, no entanto, apresenta alguns dos níveis mais elevados de pessoas a dormir na rua.” Esta afirmação foi feita pela nova Ministra de Estado para as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, Democracia, Comunidades e Fé, Florence Eshalomi, que integrou o Governo britânico a 21 de julho de 2026, após Andy Burnham se tornar primeiro-ministro.


Florence Eshalomi cresceu com a mãe e as duas irmãs e viveu, durante parte da infância, em alojamentos temporários, até a família conseguir uma habitação municipal. A experiência pessoal não resolve, por si só, um problema estrutural, mas pode contribuir para que o poder político compreenda melhor o que está em causa. Como escreveu na revista The Big Issue, uma publicação vendida nas ruas que procura criar oportunidades de rendimento para pessoas em situação de pobreza e exclusão: “Sei a diferença que faz quando se tem um lugar seguro para viver, pessoas à nossa volta que se preocupam connosco e a hipótese de planear o nosso futuro. E também como tudo se torna muito mais difícil quando não se tem.”

A fome raramente existe isoladamente é uma das expressões mais visíveis de uma precariedade que também se manifesta na impossibilidade de aceder a uma habitação digna e segura.

A escalada dos preços e a escassez de habitação acessível são fatores estruturais no agravamento da precariedade habitacional. Quando se conjugam com baixos rendimentos, emprego precário, doença ou perda das redes de apoio, podem empurrar pessoas e famílias para situações extremas de exclusão. No primeiro trimestre de 2026, Portugal registou uma subida homóloga de 17,8% nos preços da habitação, a mais elevada da União Europeia, segundo o Eurostat.

O envelhecimento demográfico está a acelerar, sem que as dificuldades habitacionais enfrentadas pelas pessoas mais velhas estejam devidamente documentadas ou sejam suficientemente consideradas.  Entre as pessoas mais velhas o risco é agravado por pensões reduzidas, isolamento, doença, perda de autonomia, inadequação das habitações e dificuldade em encontrar alternativas no mercado de arrendamento.

Quais são as condições de vida das pessoas mais velhas em situação de sem-abrigo ou de habitação precária? Quais são as causas estruturais desta vulnerabilidade e que respostas poderão contribuir para a ultrapassar?

No dia 15 de setembro, participarei no debate europeu “Pessoas mais velhas e exclusão habitacional na Europa: a crise silenciosa”, promovido pela Fondation pour le Logement des Défavorisés e pela FEANTSA, por ocasião da apresentação da 11.ª edição do relatório sobre exclusão habitacional na Europa. Uma oportunidade de partilha dos desafios e possíveis modelos de intervenção focados na atenção centrada na pessoa.

É também do princípio de ver a pessoa para além da situação em que se encontra que nasce a campanha “Ver Para Além da Rua”, promovida no âmbito do CLDS Viseu Plural: Itinerários Inclusivos. A iniciativa pretende capacitar a comunidade para reconhecer sinais de risco, abordar cada pessoa com respeito, conhecer os recursos disponíveis e facilitar o encaminhamento adequado.

Os fenómenos sociais tornam-se invisíveis quando olhamos apenas para as categorias e deixamos de ver as pessoas, as suas histórias e as causas estruturais da exclusão. Julgar não muda nada; aproximar, escutar e encaminhar pode fazer a diferença.

 

José Carreira

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