Os desafortunados cães e gatos

Do lado mau, vimos a GNR mais preocupada em defender a propriedade privada do que em defender a vida dos pobres animais. Certamente, que esses agentes da autoridade, hoje, e após reflexão, teriam agido de forma diferente. Por isso, terão de viver com a culpa de uma decisão errada que vitimou mais de meia centena de cães e gatos.

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  • 16:35 | Terça-feira, 21 de Julho de 2020
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O que aconteceu no abrigo para cães e gatos da Serra da Agrela em Santo Tirso mostrou-nos o pior e o melhor da humanidade.

Do lado bom, gente preocupada e disponível para ajudar a salvar os animais, num gesto de louvável humanidade. Sabemos que numa hora de aflição nem sempre é fácil ser-se absolutamente racional e manter o autocontrolo, ainda para mais quando do outro lado há cães e gatos em grande sofrimento por estarem a ser literalmente queimados vivos. Uma dor horrível e dilacerante que estes pobres seres indefesos sofreram.

Do lado mau, vimos a GNR mais preocupada em defender a propriedade privada do que em defender a vida dos pobres animais. Certamente, que esses agentes da autoridade, hoje, e após reflexão, teriam agido de forma diferente. Por isso, terão de viver com a culpa de uma decisão errada que vitimou mais de meia centena de cães e gatos.


As entidades públicas não saem bem de toda esta história. Desde a Câmara Municipal de Santo Tirso até à Direção Geral de Alimentação e Veterinária e até o Ministério Público que já tinha recebido queixas sobre o abrigo. Tudo falhou. Quem devia proteger os animais não quis saber, e ninguém se preocupou em transferi-los para um lugar seguro, quando o Tribunal ordenou o encerramento do abrigo.

Agora, com a desgraça consumada, rolou a cabeça do veterinário municipal, fazem-se os inquéritos da praxe e criam-se as comissões de inquérito para apuramento da verdade. Mas é preciso relembrar, a este respeito, que as decisões são do foro político. Nada restituirá a vida aos martirizados animais, no entanto, esta barbárie tem de servir para o poder político aprender a lição e construir mais Centros Oficiais de Recolha Animal, onde estes possam ser tratados com a dignidade que merecem e onde tudo o que é feito seja alvo de escrutínio e de acompanhamento.

Não basta construir, é preciso avaliar e supervisionar aquilo que se faz. Quanto aos abrigos privados, as regras e os apoios públicos que recebem têm de ser claros, assim como todo o serviço que prestam.

Não é admissível que entidades privadas que recebem fundos públicos não prestem contas da sua atividade ao poder político ou será que este também não lhas pede?

O abrigo de Santo Tirso terá alegadamente recebido apoios públicos, mas as falhas no controle são hoje uma chaga viva que nos deve cobrir da mais profunda vergonha.

Abrigos como o da Serra da Agrela e outros espalhados por este país de Norte a Sul, só existem, porque existe quem abandone os seus cães e gatos que um dia foram de estimação e companhia.

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