O tempo da asneira

Em Agosto, o país vai a banhos e o que não vai fica a cobiçar os mergulhos, a toalha de praia e a bolacha americana.

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  • 17:00 | Segunda-feira, 03 de Agosto de 2026
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Não fosse a crise migratória de Ceuta, um indignificante êxodo marroquino, que nem sequer é inédito, uma vergonha para o mundo civilizado e para a sociedade dos direitos e do bem-estar, não se dava por movimentos políticos em Portugal. Sem qualquer pudor, a extrema-direita apropria-se da desgraça como o abutre abocanha a presa, esventrando-a e tirando-lhe o sangue.

Em Agosto, o país vai a banhos e o que não vai fica a cobiçar os mergulhos, a toalha de praia e a bolacha americana. Neste mês de festas e romarias, quando se inventam santos para haver arraial, Portugal não está para canseiras, físicas e de pensamento. Os dias vão propícios a palitar os dentes, comer uns melões com umas lascas de presunto, umas mariscadas regadas com jolas geladas, a comprar umas arrecadas em ouro e pulseiras para os meninos da comunhão. E casamentos aos dias de semana, que os domingos já estão a abarrotar de nubentes.

Com a Administração Interna envolta em casos sem consequência, apesar das pontas soltas que aqui e ali vão emergindo, o país espreguiça, na confiança de que quase sempre a asneira política sai impune e não é penalizada. Guarda-se o cartão vermelho para o acto eleitoral como se no “intermezzo” de quatro anos tudo fosse permitido e, com o maior à-vontade, se pudesse ser incompetente e leviano. Este é o tempo certo para as desconformidades, no pressuposto de na abúlica oposição, o fiscal da arte, também não haver energia para grandes batalhas.

Em Portugal, o país das originalidades, também há datas para o que está proibido fazer. Quando entra Agosto, tudo se adia, tudo faz-de-conta. É a função pública na languidez dos dias, a indústria a meio tempo, os serviços quase parados, os artistas e os fogueteiros num viranço, sem parar.


Em Setembro, o país dependente regressa à normalidade das lamúrias, o Estado a adiar o que prometeu, um incumprimento contagioso, com a burocracia, a mártir que escolhemos para expiar as nossas culpas, a responder pelos atrasos.

Para não estranharmos, continuamos iguais ao original.

 

Rebelo Marinho

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Publicado em Opinião