O sentimento do sossego

Em 27 de Abril de 1943, enquanto Belisário Pimenta e António Sérgio meditavam no sentimento do medo, Salazar aproveitou a circunstância de cumprir quinze anos como ministro das Finanças para falar aos Portugueses por intermédio da Emissora Nacional. Lá contou as suas historietas sobre o facto de quinze anos ser muito e pouco tempo, de […]

  • 12:54 | Sábado, 14 de Dezembro de 2019
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Em 27 de Abril de 1943, enquanto Belisário Pimenta e António Sérgio meditavam no sentimento do medo, Salazar aproveitou a circunstância de cumprir quinze anos como ministro das Finanças para falar aos Portugueses por intermédio da Emissora Nacional.

Lá contou as suas historietas sobre o facto de quinze anos ser muito e pouco tempo, de o país carecer de organização e de o Estado Novo apresentar bons resultados materiais e morais. Isto é o que infiro dos resumos, uma vez que não me detive na versão escrita do discurso. Também se queixou das guerras, da economia e das finanças, mas isto é já ir longe demais num sítio como este, dedicado às bicicletas. Um embaixador inglês associou o tom enigmático e cavo de Salazar aos significados recônditos do oráculo de Delfos. A uns, a dignidade sombria de Salazar sossega-os; a outros, cria um sentimento de medo; a raros, uma vontade de oposição e combate.

Foi precisamente no mês seguinte que chegaram à Curia cerca de duzentos soldados belgas. Tinham estado retidos em Espanha durante dois anos. Permaneceram no Palace Hotel até Agosto. Da Curia, seguiram para Inglaterra e participaram no desembarque dos Aliados na Normandia. Em Setembro e Outubro, a Curia haveria de receber judeus sefarditas deportados pelos nazis. A família Benveniste chegou a 16 de Outubro e também ficou no Palace Hotel.

Nuno Rosmaninho

(Fotos DR)

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Publicado em Opinião