Há formas discretas de esquecimento que não resultam de proibição nem de censura explícita, mas antes de um lento afastamento da memória coletiva, quase imperceptível, que acaba por produzir efeitos mais duradouros do que qualquer interdição formal.
A história cultural portuguesa do século XX contém alguns desses silêncios, e poucos serão tão reveladores como o caso de um artista cuja obra permanece amplamente visível em instituições nacionais e internacionais, embora o seu nome raramente surja no discurso público contemporâneo. Refiro-me a António Lino, cuja trajetória artística levanta uma questão que importa colocar com serenidade intelectual: como pode um criador com reconhecimento internacional significativo ter praticamente desaparecido da consciência cultural do seu próprio país.
Não estamos, portanto, perante um artista esquecido por falta de relevância histórica, mas diante de um fenómeno mais complexo, no qual a permanência material da obra contrasta com o progressivo desaparecimento do autor da narrativa cultural dominante. Tal fenómeno torna-se inteligível quando considerado à luz da profunda transformação política ocorrida em Portugal após 1974. A transição para a democracia implicou necessariamente uma revisão crítica do passado recente e das estruturas culturais associadas ao regime anterior, processo historicamente compreensível e politicamente legítimo. Contudo, como frequentemente sucede em períodos de rutura, a necessidade de redefinir referências coletivas conduziu por vezes a simplificações interpretativas que tenderam a associar a avaliação cultural ao posicionamento político dos seus protagonistas.
A ligação institucional e estética de António Lino ao contexto do Estado Novo e à figura de António de Oliveira Salazar terá contribuído decisivamente para esse afastamento gradual. Não se tratou de censura formal nem de exclusão deliberada declarada, mas antes de um processo difuso de desvalorização, traduzido na escassez de estudo académico, na limitada divulgação mediática e na ausência de reavaliações críticas que normalmente acompanham figuras artísticas de relevância comparável. Assim se produziu um paradoxo digno de reflexão: numa sociedade democrática que justamente rejeitou a censura política, consolidou-se um silêncio cultural que acabou por desempenhar função semelhante ao esquecimento institucional.
Uma democracia segura de si mesma não necessita de reduzir a complexidade do passado para afirmar os seus princípios. Pelo contrário, demonstra maturidade quando consegue integrar criticamente todas as dimensões da sua herança cultural, incluindo aquelas que suscitam desconforto ou debate. Ignorar determinadas figuras não corrige a história, apenas a simplifica, e toda simplificação excessiva empobrece inevitavelmente o conhecimento coletivo.
Talvez o caso de António Lino revele, em última análise, menos sobre o artista do que sobre a forma como Portugal ainda dialoga com o seu século XX. O tempo histórico suficiente já decorreu para permitir avaliações mais serenas, menos condicionadas pela proximidade emocional das ruturas políticas. Reexaminar trajetórias artísticas não significa rever consensos democráticos fundamentais, mas apenas reconhecer que a cultura nacional é sempre mais ampla do que as circunstâncias políticas que a atravessam.
Uma comunidade cultural madura não teme revisitar o passado com espírito crítico e equilíbrio intelectual. Teme apenas que o silêncio substitua o conhecimento e que o esquecimento, em vez do estudo, passe a determinar aquilo que as gerações futuras julgam digno de memória.
Paulo Freitas do Amaral
Professora, Historiador e Autor