Um semanário destacava na 1.ª página:
Um milhão de portugueses não terá rede familiar na velhice. Metade das pessoas entre 35 e 40 anos só terá um familiar para as apoiar aos 75 anos. Directora da Pordata alerta: “Se não têm filhos, comecem a poupar.”
É complicado. Que país estamos a construir, cada um individualmente, e o Estado, enquanto vértice da pirâmide da organização social?
Por razões, que são várias e não importa escalpelizar, as famílias são cada vez mais pequenas, filhos únicos, dois já é esticar o orçamento, casas com um rancho de filhos acabaram. E é absolutamente natural que por razões assentes na nova estrutura familiar, que mudou radicalmente, e pelo aumento da longevidade, a questão séria de quem cuidar dos novos mais velhos se vai colocar. E pelos números anunciados talvez seja um problema nacional que caberá ao Estado pensar e resolver, e não a cada um, remendando.
Mas estará capaz?
Em Portugal é tudo para se ir fazendo, e devagarinho, de preferência. Reagindo. Perder a rede familiar numa fase de vulnerabilidade e fragilidade, é terrível. É ficar sem chão, sem referências, só memórias. É perder parte da vida e da esperança. Sair de casa, deixar os móveis, perder os cheiros, é morrer.
Já pensou o Estado como potenciar a rede de apoio à velhice, acrescentando-lhe qualidade nos cuidados? Alargá-la, melhorá-la. Como apoiar mais e melhor as instituições que chamam a si esse encargo? Como as fiscalizar? Como formar profissionais com as competências básicas para lidar melhor com pessoas numa idade especial? Como as fazer sentir socialmente úteis? Como os fazer sentir integradas? Como fazê-las sentir que não são um estorvo, um empecilho, um número?
Estamos a falar de muita gente que vai aumentar, e que já hoje há listas de espera em muitas instituições.
Não é com legislação como o Estatuto do Idoso que se avança verdadeira e seriamente.
Torço para que sim, para que o Estado inverta o ciclo de paralisia que é a nossa desgraça. Mesmo não tendo muitas e bastas razões para isso, não faz mal acreditar. Apesar de saber que planear com cabeça e jeito só após Alcácer-Quibir e até ao exílio de D. João VI, incapaz de repelir as constantes ingerências de Espanha, França e Inglaterra nos negócios do reino, e suster as cabriolices de D. Carlota Joaquina. De então para cá, tem sido um fartote de improvisos e esporrências.
Rebelo Marinho